domingo, setembro 06, 2009

Os Ipes amarelos e o seu rosto

Os ipês amarelos e o teu rosto, os lilases e tua presença; O farol da barra e a lua prata mostrando o caminho, os trilhos Os navios, as estrelas, a noite morna, a musica O roçar das mãos entremeados de sorrisos disfarçados adolescentes apaixonados, olhares velados...

O perfume de alfazema no ar A lua entrando pela telha de vidro A festa e o roseiral repleto de paixão cada corola um recado, cada rosa uma promessa

O encontro furtivo, apressado A magia do tempo parado O mediterrâneo e suas casas brancas encosta ao lado...

Bolhas de sabão perfumadas abraço apertado, corpo colado Os lilases e tua presença

Os amarelos...Não, Flamboyants é que são saudades!

sexta-feira, setembro 04, 2009

Insopitável


Muitas imagens me chegam à mente, dançam como labaredas de uma fogueira ardente, misturam-se como as cores de uma palheta louca.
            O corpo esguio, pelo ângulo observado, a aparência túrgida dos músculos a flor da pele, os cabelos suaves, levemente desalinhados e o cheiro da pele capaz de resistir a qualquer banho ou perfume.
            Assalta-me a lembrança do filme perfume de mulher – mais uma seqüência de imagens – e asseguro a mim mesma que deveria ser feito um filme chamado perfume de homem. Eu indicaria você para ser o principal personagem. Perfume de homem ou a sinfonia de uma sedução.
            Perco-me pelos cheiros, pelas imagens, por tudo que representa o prazer sensorial da sua presença, por tudo que significa o prazer surreal, sutil e emocional de estar em tão bela companhia e uma ânsia crescente e quase insana surge em mim.
            Queria beijar-lhe a boca nesse exato momento. Beijar-lhe sofregamente até perder os sentidos, evadindo-me da consciência da realidade para existir apenas e tão somente na sensação crescente de ser possuída pela sua boca, explorada pelas suas mãos, arrebatada por esse redemoinho que se apossa dos corpos no fogo da paixão.
            A insanidade cresce e toma conta de mim. Fecho os olhos tentando afugentar o que me vem de mais forte: a imagem do seu corpo sobre o meu! Belíssimo espécime de homem a beijar-me o corpo como se fora rosa visitada por um faminto beija-flor.
           
           O desejo cresce em ondas vertiginosas lembrando-me apropriada crônica lida ainda mais cedo. Insopitável é a palavra que se amoldaria perfeitamente pelo exótico que tem , pela propriedade do sentido, pela incoerência que dela exala.
            Um insopitável desejo de aconchegar-me entre os seus braços entregando-lhe toda a feminilidade que há em mim, abrindo-lhe todas as entranhas, intimidades, porções de mim mesma para, sendo sua, pertencer cada vez mais a mim...
            Estendo as mãos sem alcançar-lhe e que não está aqui eu já sabia. Nada custa tentar o jogo do faz de conta que, como tantas e tantas vezes já instou para que o fizesse. Não adiante, quero você, aqui ! Quero suas mãos a medir a dimensão das minhas profundezas, os seus dedos a queimar-me a pele e a sua boca – ah..., a sua boca tem um beijo indefinível – a arrebatar-me a consciência lançando-me numa espiral de puro prazer...

quinta-feira, setembro 03, 2009

Brincando no Paraiso

Os meninos de Deus brincam no jardim do pai. Tomam banho de mangueira e espirram água uns nos outros. A espuma da banheira sobe e toma conta, enquanto os meninos se lambuzam com a espuma, espalham-na pelo corpo como morangos envoltos em macio chantili.

Com gotas de orvalho fazem colares de alegria que usam no pescoço enquanto descem pelos escorregas do arco-íris e a gargalhada sonora das crianças em sua brincadeira assemelha-se a música celestial.
Os anjos param para ouvir e se ajuntam a espiar as criaturas de Deus em sua lúdica e amorosa atividade. A risada cristalina, os rostos de quem jamais perdeu o paraíso, encanta os anjos que param o tempo para melhor contemplar os meninos de Deus.
A tua elegância, meu menino, faz-me elegante como a tua beleza é, em si mesmo, o maior adorno que posso usar sobre mim, dizem os meninos um aos outros, ouvem os anjos...
Meninos de Deus tão ocupados na faina das horas, entretém-se entusiasmadamente, numa entrega tão total que as palavras se retiram sem saber exprimir o que vêem.
E nesse momento em que o teu sorriso é laço de fita a atar-me os cabelos em tranças, és só meu, fugazmente meu, menino de Deus a brincar nos jardins do pai!

quarta-feira, julho 08, 2009

Portais


Penso que escrever cartas é abrir janelas para que nos contemplem a vida borbulhante em pensamentos. Receber cartas é debruçar-se sobre o parapeito da janela alheia a pesquisar os movimentos dessa casa interna chamada alma.
Engana-nos o senso comum ao chamar de envelope o invólucro que envolve as cartas/janelas. São na verdade as folhas que abrimos, par-em-par, após retirarmos as travas que alguns cortam com requintada elegância.
Janelas mágicas que perduram através dos tempos se as soubermos conservar. São portais encantados para a terra do nunca onde permanecemos sempre jovens , felizes, tristes ou apaixonados.
Guardo meus portais elegantemente organizados, amarrados com uma fita-cetim-rosa-sol, em uma requintada caixa chamada memória. Lá existem portais que me conduzem à infância e seus contos de fadas, à adolescência com o primeiro beijo, eterno amor, primeiro emprego, primeiro filho...
Sento-me, hoje, ao pôr-do-sol, caixa ao colo, puxo uma carta e vejo você: tão sério, tão elegante, tão fino e eu tão menina: com medo, vontade de correr.
Uma outra carta é a mais eloqüente de todas, embora para muitas pessoas nada signifique. Um folheto, com uma rosa vermelha como ilustração. Uma mensagem dizendo confie em Deus, ponha nele todos os seus problemas!
Para a maioria das pessoas um simples folheto, para mim a mais eloqüente das cartas. Um conteúdo que jamais esqueci: aceitação, acolhimento, sabedoria. Amor no melhor estilo das práticas Paulinas.
Eu poderia ouvir:
“Quando tá escuro E ninguém te ouve Quando chega a noite E você pode chorar... á uma luz no túnelDos desesperados Há um cais de porto Prá quem precisa chegar...”
Na próxima carta, o arcano XX mostra o julgamento: Duas mulheres disputam um homem entre si. Não podendo jogar dados sobre suas vestes, usam uma menina como cabo de guerra. Porque a menina? Pequena menina assustada, sem entender nada...
Entendo as mulheres. Entendo uma das mulheres. Seu medo escondido por trás de todas as suas palavras. A que não entendo, receio. Sou avessa, tenho medo. Já não menina, nem assustada, mudo de calçada ao vê-la passar e suavemente, como quem não quer nada, olho para os lados, sorrio ingênua e sigo em frente.
“Non, rien de rien, non, je ne regrette rien.Ni le bien qu'on m'a fait, ni le mal, tout ça m'est bien égal. Non, rien de rien, non, je ne regrette rien, C'est payé, balayé, oublié, je me fous du passé.”
Ponho meus braços em torno do seu pescoço, beijo-lhe a boca quente, doce e, certamente,
“Non, rien de rien,non, je ne regrette rien. Car ma vie, car mes joies,Pour aujourd'hui ça commence avec toi”




- Oi, não sei se você ainda se lembra de mim, mas é
Uma noite longaPr'uma vida curta Mas já não me importa Basta poder te ajudar... E são tantas marcasQue já fazem parte Do que eu sou agora Mas ainda sei me virar...



- Claro, vamos conversar?
Eu tô na Lanterna Dos Afogados Eu tô te esperando Vê se não vai demorar... Uma noite longa Pr'uma vida curta Mas já não me importa Basta poder te ajudar...”
- “Entre por essa porta agora
E diga que me adora Você tem meia hora Prá mudar a minha vida Vem, vambora Que o que você demora É o que o tempo leva...



Para escrever as novas cartas que ficarão como estas, amarradas em fitas-cetim-rosa-sol, guardadas nas caixas de musica da lembrança, portais mágicos de um outro tempo, tempo de janelas e beirais.
08 jul009

sábado, julho 04, 2009

Sol da Madrugada


Lembro-me do teu rosto entre minhas mãos
molduras suaves para conter tudo
E de tua boca na minha,
sorriso profundo...
O meu corpo enlaçado ao teu
árvore de construir o mundo...
Lembro-me do mar rebentando na praia
gozo das pedras, um grito santo
a areia rangindo sob os pés,
o fogo que vem chegando
E tua voz no meu ouvido
divino comando
Os braços que me arrebatam, me prendem, me matam
me salvam do torpor do nada
O peito que me sufoca é o vinho que me embriaga
E na noite escura em que vivo
é o sol da madrugada...

quinta-feira, junho 11, 2009

Suave Delírio

Dizem que a pantera, antes da atacar, emite um odor tão embriagador que sua presa fica imóvel, completamente hipnotizada, olho-no-olho, caçador e caça, não pode e não tem vontade de fugir...Siderada, espera passiva o bote fatal.

Entendo a presa da pantera negra, também eu na tua presença me sinto assim. Completamente incapaz de mover-me em outro sentido, só anseio por abrir meus lábios a receber os teus na ânsia deliciosa de uma terna fome.

Enquanto a tua língua passeia pela minha boca e a tua boca explora o meu corpo, tuas mãos tratam de não deixar espaço entre nós como a querer fundir-nos em uma única peça. Deslizo para um suave torpor, quase delírio, provocado pelo teu cheiro que penetra, profundo, nas minhas narinas, corrente sangüínea pulsante.

E minhas mãos tateiam incertas, encontrando os contornos largos, as formas masculamente belas, os teus pelos macios, a virilidade que explodirá como cem mil fogos de artifício quando chegar a hora, procurando os caminhos que me colocarão ainda mais vulnerável ao teu poder.

E esse explorar ,que conduzes com inebriantes sussurros, leva-me a fronteiras cada vez mais novas e mais desejadas, numa hipnose contínua.

Agora é tua voz que controla a cadencia, comando determinado de um ritmo único, só teu e tão meu que me assusta, enquanto teus braços – alças firmes ao meu redor - prendem-me com força progressiva.

Içada em tua direção, meu rosto se afunda no teu peito. Teu cheiro, tua força, tua posse, tudo em ti me solta de mim para projetar-nos no infinito.

Por um micro momento somos apenas energia, desprovidas de corpo, flutuando livres e tua volta faz-me ainda mais tua, mais suavemente entorpecida pela pressão da tua matéria.

Saboreio, com alegria infantil, o roçar suave do teu rosto no meu. Beijo esquimó que remete as lembranças lúdicas da infância, mas se reveste da sensualidade feminina que me despertas.

Olho-te e olhar-te é um desejo que nunca se finda, pois a cada momento mais se enchem os meus olhos da tua presença e mais espaço há para que lá repouses. Infinitamente orgulhosa de conter tua imagem em minha retina, encantas-me para que descanse na fortaleza do teu abraço...

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Haverá uma lua de prata

Na varanda se pode observar a lua de prata que nasce das profundezas do oceano. Dispenso o banco e me acomodo sobre seus joelhos, deslizando até encaixar-me perfeitamente na envergadura do seu tronco.

Ainda sobra muito de você, acima e para os lados, além da parte que ocupo. Encosto minha cabeça no seu ombro enquanto seus braços me enlaçam deixando suas mãos repousarem sobre meu ventre.

Aspiro o perfume da noite que se confunde com o seu. Encravada no seu peito, sou menina saltitante e rebelde. Presa no seu abraço, sou mulher plena, como a lua cheia, que procura nos seus olhos a trilha a ser seguida.

A noite é bela como você. Cheia de mistérios, aromas e sabores exóticos. Fortemente delicada, a brisa movimenta nossos cabelos, confunde-os e misturando nossos odores.

Queria parar o tempo nesse exato momento em que coloco os pés no portal do paraíso. Sou Eva renascida e remida de todos os pecados não cometidos. Premiada com o máximo da realização humana, guardada no abrigo de ser somente sua.

O mar quebra delicado e suas espumas lambem modorrentas a areia da praia. Sei que a água é tépida e seu balanço suave. Sinto-me suavemente embalada. Fecho os olhos para melhor aproveitar a noite, seus ruídos, perfumes e toques.

Os primeiros raios de sol chamam-me para um novo dia e a certeza de que não está ao meu lado fere-me certeira preenchendo-me com dose infinita de saudades... Seu cheiro ainda permanece em mim!

segunda-feira, novembro 17, 2008

Notícias do Exilio

Nur,
 Receber notícias suas é sempre como acender o sol no meio da noite!
Aqui,  nessa imensidão gelada, faz muito frio e é muito escuro,  apesar das grandes planícies geladas.     
   Para quem veio do mediterrâneo com seu mar  azul, seus dias quentes e  multicoloridos, casas brancas pelas encostas dos montes, janelas salpicadas de gerânios vermelhos,  rosas  colombianas e noites de sol, a Sibéria é muito triste. 
   A neve daqui não é como  a que conhecemos: flocos  macios deslizando do céu como se S. Pedro brincasse de fazer pipocas e as derramar sobre nós. Não, a  neve daqui é cortante e árida. Machuca a pela, enrijece a alma!
    Seguindo sua sugestão, fiz uma faxina no meu cantinho, no meu  escritório e na minha mente. Fixei uma bela imagem de Parador na parede de frente ao meu local de trabalho e, sobre a cômoda do quarto, coloquei meu fino vinho espanhol, meu xerex, Jerrez, para ajudar-me nesse longo exílio do mundo das cores.
    As pessoas daqui têm um mórbido horror a tudo que resplandeça a felicidade e cor, assim foi que minha palheta de cores foi-me subtraída, meus ingressos ao arco-íris vetados, restando-me sonhar e lembrar, pois, graças aos Deuses no pensamento humano ninguém manda.  Conheces-me o suficiente para saber que, tanto quanto possível, mantenho um sorriso no rosto e um dolce far niente de impressionar a qualquer dandy do velho mundo das luzes. Por dentro, enlouqueço a cada dia enquanto busco achar a formula que me reconduzirá a liberdade!  Momentos atrás, escrevi a Penélope, que também buscava noticias minhas, dizendo-lhe: A novela, como todo bom drama mexicano, oscila entre momentos de amor e ódio! No momento "Tiao Gavião" me mantém prisioneira na torre do castelo, cortou minhas tranças e não deixa a quadrilha da fumaça chegar perto...rs...Enquanto eu pergunto quem poderá me salvar, retoco meu batom, faço juras de amor eterno e penso numa forma de pegar uma carona nas asas de uma borboleta, passear no rastro da lua e voltar junto com o primeiro raio de sol! C'est la vie!  Ao acordar tomo um cálice do meu vinho predileto e ao dormir outro para me embalar o sono. Vejo fotos, lembro das estradas que me conduziram a tantos momentos deliciosos.
        A voz do Comandante  chegou-me aos ouvidos, outro dia, como o barulho da água rolando sobre seixos polidos, como o sussurar das folhas no seio da floresta. Pareceu-me até que o sol saíra só para me ver. Tão rápido quanto delicioso foi o momento, que me pareceu uma eternidade contida em menos  de um punhado de segundos.
      Lembrou-me a música Pensar em você: É só pensar  em você que muda o dia,minha alegria dá para ver...
      Nur, querida, sei que tudo que tem um começo tem  também um fim, mas realmente gostaria que ao voltar desse exílio ainda pudesse encontrar minhas  palheta de cores no mesmo lugar: nos braços fortes, na pele macia, no rosto bonito e na alma cavalheira  deste fino vinho espanhol que é Jerrez!

segunda-feira, setembro 08, 2008

Desejo

A imagem no espelho enche o peito com um misto de orgulho e tesão, admiração e carinho, algo que nunca vou saber definir, mas que causa a sensação de um dilatamento no peito e um acelerar da respiração indescritíveis.

Jamais homem algum me causou uma impressão tão forte, foi tão admirado, desejado e, de alguma forma, ternamente protegido.

Caminho decididamente em pânico e o abraço pelas costas colando teu corpo ao meu. Meus braços quase não são suficientes para enlaçar o tronco largo e necessito colocar-me na ponta dos pés para alcançar o teu pescoço e sentir a pele no seu natural, roçando meu nariz na tua nuca para sentir o contato e aspirar o gostoso cheiro que dali emana.

As mãos que cobrem as minhas, deslizam pelos braços em busca do meu corpo, são fortes e determinadas, carinhosamente determinadas. Possuem uma sensualidade para a qual não conheço palavras. Alcanço o colarinho e desamarro a gravata tão bem assentada. Livro cada botão, percebendo pelo tato o peito macio que ha sob a camisa. Sem ver, toco o cinto, desatando-o e ao abrir os últimos empecilhos deslizo junto com a calça até tocar o chão. Tiro-lhe os sapatos e as meias, uma a uma, e, admirando o espetáculo que se desenha, penso que este é um homem aos pés de quem vale a pena se pôr de joelhos!

Dobro-lhe a roupa como já o observei fazer. Não que ache isso necessário, mas como uma carinho a mais, uma atenção, antes de voltar-me para um abraço.

A boca que procura a minha é quente, macia, delicada, mas desejosa, deliciosamente incisiva nos seus movimentos, na sua busca. Sinto-me afundar numa rosa colombiana, ser tomada por um torvelinho, caindo em queda livre. Despir-me acontece com sutileza e calma absolutamente sensual, como inclinar-me para beijar todo o teu corpo, centímetro a centímetro,desde a testa até os pés, numa excursão lenta, onde se pára a todo momento para admirar tão bela paisagem .

Aspirar profundamente o teu cheiro, provar do teu gosto de forma intensa, guardando-o dentro da minha boca, molhada, morna. Sugando o prazer, acariciando o sexo com minha língua, sentindo em mim as vibrações do teu próprio prazer e então voltar delicadamente para o encontro dos teus lábios nos meus, entregando-lhe o comando das sensações.

Minhas pernas em arco são o cálice onde bebes do meu prazer providenciando sempre para que ele se renove e nada é tão esteticamente prazeroso como ver a coroa que depositas em mim ao buscar em minha intimidade toda a excitação possível. Afagar a tua cabeça, sentindo a maciez dos teus cabelos e quentura aveludada da tua língua são provocações irresistíveis ao meu desejo já tão aceso pelo contato com o teu corpo gostoso.

Entrego-me ao desvario do prazer intenso e não ha. suplica que afaste a tua boca de mim até que me tenhas novamente pronta a acompanhar-te nesta viagem intensa.

Então ver teu rosto sobre o meu, sentir-me presa a envergadura dos teus braços é algo indescritível. A certeza de que nada, nem ninguém, tem força suficiente para arrebatar-me deste momento é o contraponto certo para o teu rosto entre minhas mãos, uma forma de segurar o momento, afastar a idéia de que estou sonhando.

A tua força me invade as vísceras. O ritmo dos tambores de Beltrane ressoa no meu ventre. É o rito primervo da criação, a repetição do momento em que Tupã, o grande Deus-Sol, inseriu seu cajado nas profundezas da Mãe Terra e a abençoou com a fecundidade que deu origem a vida.

Nada mais existe além do teu ritmo dentro de mim. O tempo pára, o mundo cessa e tudo que existi é apenas o comando suave e firme da tua voz que me incita a seguir-te... Olhos-nos-olhos, nos deslocamos no mesmo sentido, no mesmo compasso até que deslizamos pelas curvas mágicas do prazer .

Com a respiração acelerada, o corpo agitado, úmido, o coração acelerado, olho em volta e se o teu cheiro ainda está presente, mas você não está ao meu lado, apenas o frio e o escuro. Sonhei que nos entregávamos e tão profunda foi minha saudade e tão grande o meu desejo que meu corpo traduziu-se em saudades tuas...Que mais posso dizer além de: quero você!?

terça-feira, agosto 26, 2008

Elegância

Minhas mãos em conchas guardando o teu rosto, meus dedos brincam na maciez dos teus cabelos, tua beleza se estende sob meu olhar admirado. Meu olfato inebria-se com teu aroma, sorve-o deliciado. Meu rosto curva-se em tua direção para sentir, tête-à-tête, a textura de tua pele.

Toco-a com a ponta de língua, delicadamente, lasciva, mas respeitosamente. Gosto de fruto maduro no qual o sol e a chuva temperaram suculento paladar. Aroma fino, elegante, sedutor como sedutoras são as pernas que abraço: delicado e preciso trabalho de fina escultura. Beleza rara de colunas bem assentadas.Bases perfeitas.

Elegância é o teu tema porque esta palavra é extensa e vai além da roupa bem cortada, cara. Elegância transcende a beleza: é um estilo, uma coerência, um modo de ser. Algo inato, intrínseco, próprio. A precisão dos movimentos, a forma de falar, andar, agir. Elegância é um sem número de coisas que juntas formam um conjunto indefinível, mas palpável.

És absolutamente elegante de terno, jogging ou bermudas. Curvado, experimentando a temperatura da água, vestido de céu, tens uma graça impar, absolutamente máscula, inebriante, hipnótica e enquanto tua imagem se mostra indelevelmente tatuada nas minhas retinas, minha mente percorre as dobras do tempo em busca de todas as inúmeras vezes em que já te avistei sem que jamais o tenha visto menos elegante que neste momento em que tuas mãos traçam o intricado nó de uma gravata...

As observações femininas, que sempre cercaram você, zumbem nítidas nos meus ouvidos fazendo suscitar um anão malvado de olhos verdes. Afasto-o com um sorriso, não me é permitida a companhia deste moço chamado ciúmes.

Tua beleza, que não é física apenas, tua elegância, que transcende qualquer conceito, me bastam porque chegam sempre repletas de um carinho que sacia, alimenta, completa. Olhar-te, sentir-te, estar entre os teus braços – abraços – é como provar água da nascente que se abre ao sol da manha vindoura. Pura entrega, enlevo e música.

Nada mais além do tempo que pára e nos observa crianças a brincar no regato da vida. Nada que não sejam os teus braços em volta de mim, os teus dedos tamborilando nas minhas costas, o meu rosto enterrado no teu peito e o som da tua voz como a água rolando nos seixos enquanto a copa das árvores filtra o sol para que não faça calor demasiado.

Nada pode ser tão elegante, singelamente forte e belo quanto esse momento.

Minhas mãos em conchas se abrem vazias, o abraço fresco da noite invernal me traz de volta a realidade. Ao meu lado faz frio e o escuro enche o ar com teu cheiro e calor... Saudades tuas concretizadas nas águas que jorram em mim.

sexta-feira, julho 04, 2008

Terminos e recomeços

O que vale é amor que não se olvida,

tristeza que na pessoa desperta

a dor que machuca na partida,

trazendo aos olhos a descoberta

no infinito adeus da despedida,

saudade é inspiração para o poeta

em seus versos clama a dor sentida.”

(Partidas - Teca Miranda)

Não sei ao certo porque, provavelmente por, em termos de pessoas, haver perdido mais que ganhado, tenho dificuldade de lidar com as perdas, mesmo as perdas irremediáveis, as esperadas, as – como a sua – longamente anunciadas.

Sobra sempre uma espécie de vazio, algo como um vácuo perfeito, o princípio do nada que o cérebro teima em encher com idéias e conceitos. Pré-conceitos porque ninguém garante, absolutamente, que poderia ser diferente... Pessoas não são receitas de bolo , o script da vida é único para cada um e assim seguimos, ou caminha a humanidade, como diz o título do antigo filme holywoodiano.

Olho a estrada e você vai seguindo, afastando-se lentamente como uma imagem em câmera lenta As cores sumindo aos poucos, esmaecendo, perdendo contato. O cenário casuístico, como se tudo devesse acontecer assim. Câmera, corte o plano e faça um closed! seu rosto respira aliviado, seus olhos espreitam vigorosos novos horizontes, estradas diversas, transeunte frescos do rocio.

Minha mente, minha maior amiga e minha melhor inimiga, sussurra ao meu ouvido: Lestes as crônicas da morte anunciada? Não te parece familiar a cena??? Sim, sim, mil vezes sim e não sabes tu que me recuso a entender porque sempre sobra este vazio imenso que nem é dor e nem sabor, apenas algo que se esvai como sangue de vermelho vivo, como uma unha quebrada ou o salto de um sapato que ficou na escada!...

Ë vermelho vivo, vermelho sim, é o sangue sim, o mais puro de mim e a dor lacera tanto quanto enfeia a mão a unha rachada, mas coloco um sorriso band-aid e prossigo o baile pois o filme tem que continuar.

E se te perco nestes caminhos – e a pergunta sempre se estabelece: Se era para te perder, porque fui te achar? _ acharei outros viandantes a acompanhar-me, todos dispostos a serem coadjuvantes, nenhum a reclamar o papel principal e sempre a mesma certeza de que dantes havia melhor.

Continuísta, corte a cena para as ruas! Pessoas trafegam todos os dias, em todas as direções, absolutamente perdidas, cantarolam canções a esmo, como se tentassem dizer que são felizes.

Procuramos lá fora o que queríamos ter aqui. Deveríamos ter em nós toda esta paz, liberdade e acalanto que buscamos no outro. Cantamos coisas como “chove lá foraá, faz tanto frio. Me chama, me chamaá....Aqui dentro? Vermelho sangue, escarlate, vivo, essência da alma correndo nas veias, espalhando-se pelo chão.

A estrada se estende, você vai sumindo, a mão estendida num cordial gesto de até logo, na verdade adeus, e eu aqui, sempre com dificuldades em lidar com a perda!

Parusia

A água morna envolvendo o corpo num carinho tépido disfarçando o frio da noite longa. As longas noites frias, os silêncios intermináveis, gélidos, escuros e o pensamento vagando, perscrutando as dobras do tempo.

Unhas vermelhas sobre uma camisa branca. Botões tateados, abertos como pontas de fita que se unem em laço. O pano cheiroso – cheiro de homem bom – papel de presente que escorrega sem as amarras.

Um volteio, pirueta, sissone, elevé e os braços em quinta. O rosto mergulha na gramínea macia, inspira o perfume das flores, dos grãos maduros. Pele crestada pelo sol, fruto maduro de sabor prefeito.

No boca-a-boca, abrem-se as rosas e chovem pétalas, corolas em oferenda. Milhões de brigadeiros correm pelas ruas, descem as estradas enquanto correm as cataratas. Águas que se misturam, misigenam, massageiam.

Dedos ágeis em uma mão segura.

Mergulho! Não há tempo, apenas o tic-tac dos corações ofegantes no ritmo imposto pela dança. A cabeça leve, o corpo solto, o tempo e o vento fazem pas de deux. Emboité e o mundo recrudesce ao big-bang. O estrela explode e nasce o sol do seu sorriso. Rosa aberta; botão. Homem-menino, sorriso divino, parusia.

Mozart e a Sinfonia 40. Cronos, insistente, e o frio lá fora. Noites extensas, silêncios prolongados, neblina silenciosa.

- Alô!

“O seu amor, o nosso amor, me faz pensar.

É tão fácil lembrar, com a memória é muito simples.

Difícil é esquecer quando se tem amor.

E você tornou-se impossível de esquecer.

Há tempo que ficou pra trás todo silêncio e solidão;

Se o tempo foi, você ficou junto de mim, à me aquecer.

Há tempo que o frio passou, ficou o calor da tua luz;

Se o tempo foi, você marcou presença onde não há valor...”.

(excerto de Parusia,Rosa De Saron. Composição: Guilherme De Sá)

terça-feira, junho 24, 2008

Yule

O coche nos pegaria às 17h30min, no cais de pedras pretas, coladas à parede por cimentos fortes e barras de ferro.

Escolhi as peças do vestuário com toda a expectativa e reverencia de um cerimonial, afinal os tambores tocam o máximo declínio do deus sol, seu sono, o sono do ventre da terra, das sementes, a vida entrando em estado de latência.

Seguimos na embarcação vinho, menor, mais aconchegante. Gostei da escolha. Não sei por que, sinto-me melhor nela que na imponente nave prata e enquanto singrávamos as serras, descendo e subindo, conversávamos sobre coisas corriqueiras atualizando assuntos mundanos, trocando conhecimentos.

Logo avistamos Avalon, no topo da colina, cercada por uma nevoa fina que os raios do sol mortiço tornava ainda mais mágica e à medida que nos aprofundávamos no portal construído por árvores entrelaçadas, o barulho da cidade se distanciava. O mundo das fadas assumia o controle do tempo.

Pequenas e coloridas flores margeavam o caminho, nasciam entre as pedras irregulares que atapetavam o chão de terra vermelha.

Mais uma curva, mais uma elevação e o cais fechou-se atrás do coche.

A porta abriu-se para uma escada de granito cinza: degraus largos, uns cinco ou seis, não mais. Ao atingir o primeiro degrau recebi minha coroa de rosas. A senhora das rosas, a mulher em plenitude, a natureza desperta que irá adormecer.

Mãos firmes, serenamente ansiosas, buscando os caminhos, detalhes, inspirações.

Um suave e revigorante perfume de canela precedeu a entrada no salão elegantemente discreto. Pequenos arranjos em estilo oriental davam graça e aconchego a um espaço onde tudo falava de horizontes sem fim.

Fosse eu Morgana, a rainha das fadas, e não teria duvidado nem por um minuto que aquele homem era Arthur, o rei dos bretões. O meu irmão mágico, o amor de minha alma, o gamo-rei!

Elegantemente vestido, ele era parte imanente de todo aquele espaço. Estivera ali por todo o tempo, desde a eternidade.

Seu porte, seu talhe, sua voz pausada e grave, seu olhar sério e brincalhão... Sua pele branca crestada pelo sol, seus tipo viril. Majestoso entre todas as majestades, a figura de Jerez não admite perguntas, dúvidas, titubeios...

No embate que repete o momento primeiro em que o mundo se criou, sua força suave é invencível, seu comando ritmado e firme, indescritível e sua vitória inquestionável, ainda que se pergunte: haveria vencidos e vencedores?

O aroma do prazer, da fome de vida que foi mitigada, espalha-se pelo ambiente, derrama-se nos corpos exaustos, reflete-se no mais belo sorriso que jamais vi!

O deus sol é o menino da promessa, como a senhora das rosas é a mulher em sua plenitude. O cheiro de canela e a beleza do sol; o feno macio como cabelos em desalinho, o calor de um abraço, a música de um sorrir e seu rosto encaixado na palma de minhas mãos em concha.

Água de cachoeira e o tempo que, na ante-sala, bate a ponta do pé insistente.

A terra das fadas e sua magia.

A realidade que nos suga de volta, para o barulho, para uma outra vida...

O coche retoma o túnel, desce e sobe as serras, sua mão permaneceu esquecida sobre meus joelhos. Um carinho, um toque de ternura, um gesto apenas... Uma coroa para a senhora das rosas, uma chuva de pétalas de rosas a cobrir-me e untar-me a pele com indelével aroma, o teu aroma!

O tempo dos homens e vida cotidiana que se re-instala.

Cantarolo baixinho: Saí à toa nessa madrugada/Sem saber porquê/A noite daqui é tão linda e faz me perder/Penso num belo horizonte em poder te ver/Sei que eu não tenho mais nada a perder/Se eu não tenho mais nada a perder/No meu peito eu tenho você/É nessa estrada que eu quero estar/Eu quero o dia, a noite e o mar e cantar/... / Onde está você meu amor?/Eu preciso de um pouco de calor

Nos bosques ainda cantam a música da senhora das rosas... Senhora quem chamais /quando passo ao vosso lado /senhora quem olhais pondo /os olhos no passado /Senhora é bom esquecer /esse triste amor ardente /pois não sabeis viver /ao sabor do amor ausente /Não há rosas pra vos dar /tenho alguém por quem esperar /Senhora o meu amor /não vive num castelo /senhora o meu amor /é doutro olhar mais belo /Eis as rosas que lhe vou dar /há mil rosas pra eu lhe dar

-- "Todos os deuses são um só D'us!"

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Icaro

Recordo-me perfeitamente do dia em que conheci Ícaro. Minha vida estava de ponta cabeça e nada fazia sentido com nada. Saí a esmo, como todas as noites, espiando aqui e ali, procurando uma alma inteligente disposta a dar-me alguns minutos de atenção numa conversa medianamente saudável. Muito embora minhas emoções estivesse desordenadas, meu cérebro permanecia íntegro e como tal minha curiosidade. Aventurei-me diversas vezes por ambientes novos, onde nunca havia estado e onde nunca mais voltei depois daquele dia. Espiei por varias janelas sem saber ao certo o que procurava, hoje sei que procurava Ícaro e sua inteligência brilhante, suas respostas rápidas, sua atenção solícita. Numa destas janelas em que me plantei a olhar o tempo, foi que o encontrei. Começamos a conversar despretensiosamente, quase a saber o que um e outro fazia ali.Não nos parecia que fosse o nosso ambiente e assim a conversa foi evoluindo e nos envolvendo e nos fomos tornando íntimos, amigos, trocando informações cada vez mais pessoais até que – perdida entre os ponteiros do relógio – tive que jogar meu endereço no ar e, como uma bailarina encantada, dar uma pirueta e sair de cena. Antes, agarrei , sem muita certeza, sua direção. Dia seguinte eu aguardavam-me compromissos de alta responsabilidade, mas meu último pensamento foi dele, assim como o primeiro do dia e o próximo logo após : queria falar-lhe, contar-lhe como foi, dividir, compartilhar! E assim os dias foram transcorrendo com nosso envolvimento maior a cada dia. Encontrávamos-nos furtivamente, entre um e outro café, fazíamos janelas nas escalas de trabalho e embora não houvesse uma presença física, real, foi a pessoa com quem mais compartilhei em toda a minha vida e que esteve, efetivamente, mais presente no meu cotidiano. Fiz planos que, hoje sei, não conseguiria jamais concretizar. Foram muitos os sonhos, mas eram apenas sonhos e como tal dissolveram-se no ar, embora algumas idéias ainda permaneçam. Em meados de novembro, sem mais nem menos, Ícaro enviou-me uma carta lacônica. Era imperioso que nos afastássemos para sempre. Havia pensado, discutido nossa situação com alguns amigos, e chegara a conclusão que nosso envolvimento era prejudicial a sua vida. Fiquei atônita. Busquei razões e não as encontrei. As interrogações cresceram, floresceram e morreram sem encontrar substrato. Não havia resposta para as minhas perguntas. Nada mais deveria existir, nem mesmo uma amizade, uma camaradagem. Perdi o rumo e fui salva, mais uma vez, pelo mesmo método. Anos antes, havia reencontrado um velho amigo, Jerrez, com quem restabeleci uma fraterna relação que aos poucos tomou um outro contorno. Eu e ele sofríamos de um mesmo mal, o qual apelidei de solidão dos fortes, e da solidariedade mútua surgiu uma relação também física onde buscávamos aplacar a sensação de sermos seres únicos, sem um par, nesse mundo dual. Por breves instantes nos sentíamos completos, acolhidos e entendidos e isso nos recarregava para a faina cotidiana. Ainda hoje participamos desse mesmo programa embora com contorno, agora, diversos. Seu abraço forte é o melhor esconderijo que alguém pode ter quando o mundo desaba e tudo que se enxerga a volta é o próprio caos das perguntas que não possuem resposta possível. Voltei à terapia. Se minha era, anteriormente, um grande quebra-cabeça desmontado, agora se rasgara a caixa e as peças voavam aleatoriamente pelo espaço infinito do Universo. Saí do emprego que já me sufocava, viajei em férias, ocupei-me de outras coisas, mas não o esquecia. Todavia, respeitei seu espaço e decisão e aos poucos fui acostumando - me a não ter com quem compartilhar, dividir, brincar... E meu porto seguro tornou-se, a cada dia, mais seguro. Na terapia evoluía lentamente. Não é fácil recolher mais de um milhão de peças soltas pela imensidão do nada...Um dia, discutindo minha relação com Ícaro e a dor que sua ausência me causara, utilizei-me de uma expressão que foi fundamental para o deslinde da situação: “Os braços fortes de Jerrez salvaram-me mais uma vez!, por quê?” Questionada fui por não haver utilizado outro verbo: porque não me saciou, aconchegou-me...porque me salvou?Estaria eu em perigo? Estaria fazendo algo que não me sentia preparada? Seria Ícaro uma fuga? Chegamos a conclusão que admirava em Ícaro, tal qual Narciso, o reflexo de mim mesma ... As peças foram se juntando pouco-a-pouco e tudo foi se acalmando. Colei a caixa deixando dentro algumas peças ainda sem montar – permanecem assim e creio que ainda vão ficar por lá algum tempo! Certo dia o telefone tocou e, ao atender, surpreendi-me que fosse Ícaro. Havia repensado e chegara a conclusão de que sua decisão não fora acertada. Conversamos, mas, agora , entendia todos os mecanismos da nossa relação. Delimitara o tema longamente e permaneci assim. Dizem os filósofos gregos que o amor se divide em três categorias, com gradações diversas: ágape – o amor transcendente, Eros – o amor físico e Phileos – o amor aos semelhantes. Ícaro é Phileos, é o reconhecimento das semelhanças entre duas almas, a perfeita identidade espiritual entre seres sem que haja a necessidade de uma aproximação física. Entendo suas batalhas, embora não compreenda algumas de suas reações, sei que me entende também, podemos nos apoiar e nos amar desta forma tão afastada de todo e qualquer outro impedimento, desta forma maravilhosa que o tempo não tem o condão de estragar e que os anos só fazem apurar a qualidade... Somo almas gêmeas no melhor sentido da expressão!

sábado, dezembro 15, 2007

Nada mais que refletir

Drª, boa noite!

Aqui estou a cumprir o prometido.Nada há que resguardar, uma vez que lhe permiti ler os escritos. Se a pagina é minha,pessoal, receptáculo das minhas reflexões – caso as possamos chamar assim – e se, ainda assim, lhe franqueei o acesso a ela é porque lhe permiti, tacitamente, fazer perguntas as quais deveria , por honestidade, responder-lhe.

Pedi-lhe um tempo para concatenar as idéias, verdade seja dita, porque falar de mim ou de minha circunscrição emocional é algo extremamente difícil,ainda que seja pela falta de hábito.

Poderia lhe dizer que o Jerez (ou Fino) é um vinho seco, um clássico produto espanhol, com um toque salgado, excelente para se tomar como aperitivo ou na companhia de frutos do mar, referindo-se ao qual Willian Shakespeare disse: Se eu tivesse mil filhos, o primeiro princípio humano que lhes ensinaria seria fazê-los abjurar das bebidas insípidas e se dedicarem ao Jerez"( Henrique IV, parte 2) ou, ainda, poderia lhe dizer que Jerez é uma região da Espanha onde o solo é marcado pela forte presença do calcário, numa forma apenas encontrada ali: a albariza, um tipo de carbonato de cálcio com estrutura esponjosa e profunda. A importância do solo é tão grande que há todo um vocabulário para designar os diferentes formatos das pedras bem como suas diferentes composições, por exemplo as lentejuelas são pedras soltinhas e misturadas com barro ou pelirones que são pedregulhos maiores. A região compreende um triângulo formado por três cidades: Jerez de la Frontera, Puerto de Santamaría e Sanlúcar de Barrameda, no sul da Espanha. As três cidades são banhadas por ventos cheios de maresia, vindos do sul e do sudoeste, que temperam (quase literalmente) suas terras e levam umidade suficiente para manter suas uvas frescas nas noites do quente verão. Estas mesmas brisas serão responsáveis pela formação dos microorganismos que formam a "flor" encontrada na elaboração do Fino.

Não teria, de todo, me esquivado de responder, mas, certamente, estaria fazendo pouco dos seus neurônios que, quando assim desejam, são turbinadíssimos! (risos),afinal quem escreveria cartas a uma região do mediterrâneo, verdade?

Jerez é o nome que escolhi , por analogia de qualidade, para designar uma pessoa que conheço há muitos anos.Acredito chegue perto de 17 anos o tempo transcorrido desde que nos vimos pela primeira vez. Então eu era uma menina assustada, embora igualmente altiva – para usar uma expressão do próprio a meu respeito – no alto dos meus 27 anos. Jamais vou esquecer a primeira vez que o vi: usava um terno azul marinho e uma camisa tão alva que por alguns momentos feriu-me os olhos! Tão pouco esquecerei a sensação de pânico, o frio no estômago, sentida no momento em que primeiro lhe escutei a voz...Naquela época, doce inocência, acreditei que sentia medo, um estranho e inexplicável medo, daquele homem, daquela beleza rara para qual jamais tive coragem de levantar os olhos, sequer imaginar-me capaz de tocar-lhe um dia!

Na verdade o meu primeiro pensamento foi o de sair correndo em disparada rumo à porta para não mais voltar, mas havia sido recomendada para trabalhar com ele e igualmente recebera excelentes referências a seu , dele, respeito, pelo quê dominei meus instintos de fuga e fiquei.

Não saberia ao certo, teria que consultar minha CTPS e não creio que seja necessário, por quanto tempo trabalhei com ele, mas sei que só quando ele mudou de setor foi que igualmente me transferi, nesse caso por questões políticas internas da empresa. Eu era um bom cabo de guerra entre duas de suas asseclas, embora,tenha absoluta certeza, do seu desconhecimento sobre o fato.

Durante esse tempo em que trabalhamos juntos, vi e ouvi inúmeras mulheres babarem por ele, brigarem por ele, digladiarem-se por sua atenção, forjando todo tipo de situação para lhe arrebatar um olhar, mulheres de todas as idades e posições na empresa, mulheres de todos os estados civis.Eu era, então, apenas uma menina assustada no meio daquele vespeiro, mas ele foi mais meu amigo que qualquer outra pessoa quando precisei de um!

Não,certamente não falo de amigo que ouve suas confidências, mas de alguém pronto a lhe acolher como você é, a acreditar e aconselhar você com uma sensibilidade incomum, mesmo não sabendo exatamente qual é o problema pelo qual você está passando. Ainda tenho um folheto que ele me deu, à época, recomendando que entregasse os meus problemas nas mãos de Deus! A cena é tão nítida na minha memória que poderia ter acontecido ontem, ao por-do-sol!

A vida seguiu seu curso, o tempo correu inexorável, e nos perdemos de vista, o que não significa que o tenha apagado da memória. É uma das poucas lembranças ternas que tenho deste período tão conturbado da minha vida! (como se em algum momento minha vida tivesse sido serena! risos...).

Há uns dois anos, eu era estagiária na Defensoria Pública da União, recebi de um colega comum um e-mail desses que enviam com todos os endereços em aberto. No corpo do e-mail o colega fazia menção ao fato desta pessoa, a quem chamei de Jerez, haver perdido uma filha recentemente. A notícia tocou-me profundamente pois me recordava perfeitamente do quanto era devotado aos filhos. Momento seguinte, mandei-lhe um e-mail cordial de carinhosa solidariedade.

Começamos a conversar, restaurando um diálogo gostoso mas bem despretensioso, ao menos de minha parte. Reativamos memórias antigas, trocamos fotos e, por incrível que pareça, ele mandou uma foto em muito similar a imagem que tenho indelével: terno escuro, camisa branca, um olhar maroto de quem sabe algo que os demais desconhecem...Sorri vendo diante de mim uma imagem tão familiar, tão preservada pelo tempo quanto pelas lembranças. Dias após ligou-me na Defensoria e nos falamos, assim como sem jeito – certamente, pensei – pelo longo tempo em que não nos víamos. Desta vez reconheci imediatamente o aperto no estômago, o tremor do corpo, o frio nas mãos: absolutamente não era medo!

Combinamos de ir almoçar e , acredite se quiser, tive o maior dos surtos de loirice que se pode imaginar uma pessoa ter.Minhas sinapses ficaram circulares, completamente, se é que consegui realizar alguma sinapse! Não sabia o que conversar, não sabia onde por as mãos, os olhos, o prato, enfim, não cabia em mim e nem ali: queria sair correndo, me esconder debaixo da primeira mesa, cama, cadeira...Sumir! Senti-me a mais idiota das pessoas, suando frio, abobalhada, com braços e pernas muito maiores que o normal.Fiasco total,ou como a drª gosta de chamar, um King Kong fenomenal.

Para minha surpresa, os e-mails,como eu esperava depois de tanto mico, não cessaram, ao contrário recebi vários elogios e galanteios que perduraram até o ultimo momento que nos vimos e que não faz lá todo esse tempo.

Foi um dos encontros mais maravilhosos e o maior de todos os presentes que os céus me deram. Uma verdadeira marquise onde pude me abrigar dos vendavais que assolaram meu território no ultimo ano! Sua força silenciosa e terna, seu carinho austero, seu sorriso suspenso e sempre enigmático cativaram-me ainda mais do que eu já era, mas também me deram força para seguir adiante, incentivo para tornar-me melhor como pessoa e como profissional.

Se me consideram encrenqueira e destemida, até mesmo ousada, JAMAIS tive coragem de levar-lhe a voz, de contradizer-lhe, recebendo com atenção,e, não poucas vezes, lágrimas contidas, as admoestações que me fez. Senti sempre em suas palavras o desejo sincero de extrair de mim o que poderia haver de melhor e a justa compreensão do momento.

Assim foi que tive a oportunidade, nunca imaginada, de apreciar esse finíssimo vinho espanhol, cujo buquê perfeito espalha-se por 1,84 ou 87 – não sei ao certo – da mais bela estrutura física que jamais contemplei. Um sorriso inenarrável, cabelos tão finos e macios quanto os de um bebê e uma voz tronante, soman-se a um toque tão leve que mais se parece a brisa do mar quando nos despenteia os cabelos...Não saberia dizer –lhe mais sobre quem seja Jerez a não ser que é o mesmo moço da motocicleta, aquele que me atropelou com sua beleza num final de tarde corriqueiro.

Antes que me pergunte qualquer outra coisa, digo-lhe que nas curvas da vida, cheguei atrasada uns quarenta anos, mais ou menos, razão pela qual tudo que me cabe é tão somente uma prova desse finíssimo vinho sem almejar possuir a garrafa ou mesmo a vinícola. Acredito, mesmo, que no presente momento nem mesmo a prova me será ainda franqueada...

Alonguei-me por demais Drª, desculpe-me. Isso não é uma resposta a uma pergunta, mas um verdadeiro artigo acadêmico, muito embora não tenha cumprido com as suas tão queridas regras ABNT...Não gosto das regras, ela me roubam tudo que mais gosto...

No aguardo de suas considerações, fraterno beijo

TH

sábado, dezembro 08, 2007

20nov2007





" Aprendi com as primaveras a me deixar podar...E voltar sempre inteira"
Cecília Meireles





É, Jerez, haveria tanta coisa a ser dita que não acabaria mais,então prefiro silenciar esperando que o tempo possa ter a eloqüência que me foi negada pelo vazio que repentinamente se instalou em mim.
Tenho muito a agradecer pela muitas bênçãos recebidas e uma delas, a mais preciosa delas, a sua presença em minha vida – ainda que de uma forma furtiva, passageira – com todas as novas cores que me apresentou.
Se é verdade que as noites serão bem mais frias e as semanas mais longas sem a sua presença física, também é verdade que a recordação de tantos momentos luminosos me assegurarão a tepidez necessária para não morrer de frio durante a nova hibernação.
Não, não vou esquecer o brilho dos seus olhos,como pontas de estrelas, olhando dentro dos meus, ou seu rosto emoldurado entre as conchas de minhas mãos, como se houvessem sidos feitos um para o outro: rosto e mãos.
Assim vou juntando pedacinhos tão bons, cores brilhantes de um tempo tão encantando como uma barra de chocolate que desmancha na boca deixando seu cheiro impregnado no hálito de quem a degustou,lembranças de Avalon antes que o tempo do mundo cerrasse as cortinas para sempre, e vou colando fotos no álbum dos sentires.
Sem magoas, sem dores para não embaçar as cores, sigo agradecendo por sua existência, por ter do que me lembrar, por ter conhecido a luz e a haver tatuado em mim como uma marca que nunca sairá ainda que o tempo e a distancia a desvaneçam paulatinamente.
Se é verdade que a garra da tristeza vem me visitar e enche os meus olhos com as gotas da saudade, também é certo que o brilho da espuma, o calor do abraço, a força terna e a lembrança de uma envergadura capaz de me abrigar inteira correm ao meu socorro e sorrio lembrando de tantos sucos e chocolates, de tantos sorrisos e abraços e novamente é sol e não estou mais só porque você faz parte de mim...Canto baixinho a mesma canção que na rua diz: “Eu, não vim aqui para entender ou explicar ou pedir nada para mim...vim pelo que sei e pelo que sei você gosta de mim é por isso que vim!...”

segunda-feira, novembro 12, 2007

Mais noticias - sobre um sonho.

04 cheshvan 5768 Parador
Jerrez,

São os teus lábios que abrem o portal mágico e suspendem a barra do tempo.

Mergulhamos na Terra das Fadas, nossa Avalon, o mundo perdido de magia e ternura que vibra em outra dimensão.

Aqui dentro, sentado a beira do riacho que assobia a musica das almas, o tempo pára sua corrida insana para nos apreciar .

Lá fora, as pessoas correm apressadas sem dar-se conta dos flamboyans em flor que engalanam a cidade, dos ipês em sua riqueza e do perfume que exala a dama da noite. Todos correm apressados não sabem de onde, tão pouco para onde. Cá dentro, apenas nós e o tempo parado em corredeiras de prazer e carinho.

Mergulho nos seus olhos profundos, mergulhas nas entranhas do meu ser, e teus cabelos em desalinho conformam-se perfeitamente nas conchas de minhas mãos.

Teus olhos e o céu do verão. Abismal profundidade, misteriosa e encantadora escuridão. Sorriso suspenso como as águas de abril!

Teu corpo contra o meu. Aríete poderoso quebrando uma gélida superfície, desenterrando o fogo por tanto tempo adormecido, arremetendo sucessivamente com carinhoso vigor.

Teus braços no enlace sagrado construindo muralhas de proteção, contenção das marés voluptuosas das minhas vontades, segurança sempre sonhada, jamais alcançada.

Ondas crescentes de prazer extremo e teus olhos mergulhados nos meus – mesmo não os vendo – meu rosto escondido no teu peito, teu cheiro embriagador conduzindo-me em valsa alucinada – meu braços tentando reter a tua força no mergulho final onde somos um quando a maré estronda deixando livres as sementes, fagulhas de tua força viril.

Nossos corpos cansados e o descanso do teu abraço. Dedos que percorrem gentis as costas nuas, teclas imaginárias de um piano vertebral. Teu gosto na minha boca e teu rosto no fundo das retinas. Teu cheiro na minha pele e o corpo leve como se feito de nuvens.

A alma desliza pelo arco-íris refrigerando a vida que necessita seguir adiante.

Cronos suspende seu descanso...

A realidade toma-me pelos cabelos. Sorrio, na minha pele seu cheiro é uma tatuagem permanente que embalará meus sonhos até que nos encontremos novamente!

segunda-feira, outubro 15, 2007

Sonho



Tishrei 5767

Quem pode dizer aonde vai a estrada ?
Para onde vão os dias? Só o tempo...
(Only Time -Enya)


Fecho os olhos buscando conciliar o sono reparador de um dia agitado. O vento chega pela janela e brinca com meus cabelos, percorre o meu corpo, agita, levemente, a barra do lençol parecendo querer imitar a doçura dos seus dedos quando tocam minha pele como se fosse cordas de uma delicada harpa.
Na sua ausência, abraço o travesseiro procurando no contato das plumas o doce carinho da sua pele. Respiro profundo buscando no ar o seu cheiro. Escorrego para o mundo dos sonhos e para lá de todas as fronteiras damos-nos as mãos alegremente.
Num espaço onde não há proibições ou limites para todas as formas de querer, somos alegremente livres enquanto as paisagens matizadas em amarelos, lilases e brancos se sucedem com o vento acariciando nosso rosto trazendo o cheiro das rosas silvestres, cheiro de primavera.
Acompanho atenta o traço que seus dedos traçam no ar, em direção ao céu, mostrando-me algo, descrevendo um fenômeno qualquer que já não me lembro o que era para encontrar-me, a seguir, encaixada entre seus joelhos partilhando um sanduíche,um suco, um beijo.
Do alto, onde a roda gigante parou, a cidade é linda com seus milhares de olhos luminosos, estrelas terrestres que os homens acendem para não esquecer que pode existir um paraíso de claridade e harmonia. Faz frio e seu abraço me puxa para perto, me aquece enquanto sorrio, moleca, a lambuzar-me com um róseo algodão doce.
O carrossel e sua música mágica, o perfume das flores, os carrinhos bate-bate e novamente o ar da noite a nos brindar com seu perfume e frescor enquanto a lua ilumina a estrada, as ruas, o seu rosto que não vejo mas imagino sorrir, divertindo-se ao me observar tão criança na felicidade de sua companhia...Assim é, a felicidade exige que nos tornemos crianças e brinquemos com bolhas de sabão pois deste material é ela feita: contas de contar lembranças!
Abraço seu tronco firmemente, aconchego-me a você sentido seu calor quando os primeiros raios do sol, suavemente, tocam minha retina.
Acordo com os olhos marejados de saudades!