terça-feira, março 27, 2018


Elegia II


“o mais terrível dos males nada é para nós, pois, enquanto existimos, a morte não é, e, quando ela está lá, já não existimos nós. A morte não teria, por conseguinte, nenhuma relação nem com os vivos nem com os mortos, uma vez que ela nada é para os primeiros e os últimos já não existem”Epicuro


“(...)O que se pergunta é se, ao ouvir-se o ritmo biológico do próprio corpo, e ao experienciar-se — ainda que indiretamente — a condição de mortal antecipada na morte do outro, não emergirá um intuitiva ameaça que põe radicalmente em causa a possibilidade da indiferença? Ora, apreender o sentido do inaceitável definhamento é um dos requisitos necessários para se tentar apreender o tempo; ou melhor, o homem como tensão entre um futuro que ainda não é e um passado que já não existe.” (SCHELLER/QUENTAL, Antero)

Munida da reflexão acima, após 11 meses, cerca de 351 dias, eis-me de volta de uma incrivel e exauriente perigrinação pelo maior deserto jamais atravessado por mim.
No mesmo ponto de partida, deixo o féretro do homem que amo – orna-o os  meus mais belos sonhos e as mais perfumadas esperaças – e saio livre de qualquer bagagem emocional. Sem ontem e nem amanhã, livre de todas as lembranças e expectativas, resurjo das minhas proprias cinzas.
Os ouvidos que festejavam o som de sua voz, acostumaram-se ao silencio da solidão. O deserto é silencioso como a morte. No infinito do vazio entendemos o nada da existencia. Não somos, ninguém é. Estamos e estar é uma condição passageira.
A pele que vicejava ao suave toque de suas mãos, encrestou-se pelo calor do abandono e os olhos que antes brilhavam à luz do seu sorriso lavaram-se sucessivamente em lágrimas sorvidas pelo infernal calor da indiferença. Como uma lâmina bem temperada, primeiro turvaram-se, para então, dia-a-dia clarearem até despontar brilhantes ao primeiro sol de hoje.
Engana-se quem supõe – e eu mesma o fiz – que foi a carpideira quem deu cabo a tudo. Ela apenas levou teu corpo inerte já de muito morto quando se entregou ao seu choro ritimado, anúncio de uma morte já concretizada.
No inicio deste ciclo, jogara-me aos pés de um outro morto – este vivo, dizem por aí as noticias que circulam talvez para nos dar uma esperança de amanhã – e reclamei uma providencia definitiva a qual me chegou a conta-gotas enquanto meus pés ensangues e desnudos percorreram as areias tórridas do deserto.
A fome e a sede me desorientaram causando ilusões e delírios. Vi-te chegar ressurreto e sorridente e cri que tudo não passara de um pesadelo macabro, mas ao cair da noite, o frio refrescou-me a mente e abismada entendi que nada havia alí.
Por sucessivas vezes os delirios me atacaram com uma fera faminta. A febre voraz, atiçada pela esperança maquiavélica que dizia que tudo era ilusão e a verdade era a realidade que já não existia, mingou minha resistencia dia-a-dia. Na exaustão adormeci um dia, melhor, desmaiei inconsciente.
Deste dia lembro-me de duas coisas: antes de fechar os olhos clamei ao universo por clemencia. Já não sabia orar, não havia mais água para chorar e nem forças para me ajoelhar. Serenamente aceitei morrer. Fechei os olhos calmamente pela primeira vez naquele deserto sombrio.
A mão misericordiosa de Morfeu acariciou meus cabelos, fechou-me os olhos e levou minha alma a banhar-se em seus rios de águas profundas. Do meio do nada, Psiquê trouxe sua imagem à minha presença – esta a segunda lembrança – e conversamos docemente. Segue-se.
(Abraçados)
(Eu) – Saudades. Quanto tempo não lhe vejo!
        - Sim. Muito tempo. Também senti saudades, mas não posso voltar. Não tenho coragem.
-  Coragem? Como assim? O que lhe impede de voltar se estou aqui, a tua espera?
- Foste leal e dedicada. Sei das tuas virtudes. Reconheço teu carinho. Ainda sofro a influencia da tua pele e do teu corpo quente. Eu, ao contrário, profanei tua confiança, conspurquei o altar do corpo que me ofereceste confiante, violei a sacralidade da tua casa introduzindo nela o desrespeito. Envergonho-me muito e na minha vergonha – de mim mesmo, esclareça-se – magoei-te tratando-te como vilania como uma forma de me autopunir provocando tua ira.
- Não me irei todavia. Amo-te demais para tanto.
- Pois tanto pior para mim Teu perdão, tua compreensão desarrazoada, teu sentir desapegado e solicito causaram-me ainda mais espécie.
- Mas...Creio que tudo seja já passado, pois não? Aqui estamos e teus braços me abraçam como dantes!
- Não. Decerto que não. Voltei – e esta é uma tentativa de remissão – para te alertar que ele se parece comigo, mas não sou eu! Tem o meu cheiro, a minha altura e responde pelo meu nome, mas não sou eu. Que te parece o gosto que deixa na sua boca? Doce como o meu?
 - Impossível! Doce algum se assemelha aos teus lábios quando me beijam... Ele tem uma boca amarga, fria. A tua sugava-me a alma!
 - E ao seu toque, como sentes a tua pele? Como se agita a sua essência feminina? Como dantes, desces por escorregas de nuvens macias?
  - Agora que me perguntas, dou-me conta de que suas mãos não brincam com meu corpo como as tuas. Mal tocam-me e se o fazem o frenesi que causam é mera excitação nervosa. Nunca alcançou-me a alma ou lançou-me na presença do grande Deus... Não há êxtase e nem paz, ao final.
   - Pois bem,vês que não sou eu todavia. É um farsante a passar-se por mim, um fantasma a exaurir ainda mais a tua pouca energia. Não lho permita. Olha que bela construção fizemos de ti. Não deixes que avilte a obra que construímos. Chega o mal que eu mesmo, com minha covardia, te fiz!
    - Ver-te-ei novamente?
   - Não. Nunca mais, mas não chores. Fomos felizes. Temias a perda do meu corpo físico, hoje vivo em ti e quando o meu corpo se for, não lhe serei tirado, pois já não existo senão nas tuas lembranças. Guarda-as. Recolhe os sinais externos de que um dia flori teus sonhos. São lembranças sagradas de tua alma. Permanecerão lá para sempre  e tão frescas quanto menos forem expostas...
     Virei-me para beijar, ainda uma vez, teus lábios amados. Minha rosa colombiana cuja aveludada doçura tanto me encantava. Deparei-me com uma poça de água salgada ali onde antes era nosso ninho.
    De volta a realidade e ao sol escaldante do deserto, tomei das minhas lágrimas como motor e levantei viagem. De alguma forma necessitava atravessar todo aquele areal e chegar á cidade mais próxima ou, ensandecida, morreria.
    A privação pode ser uma arma de melhoria. A uva que seca deve pensar que morreu, mas na verdade transformou-se em outra fruta: mais doce e nutritiva, a uva-passa resiste muito mais e pode ser consumida de muitas outras maneiras que a uva fresca jamais imaginaria.
     Assim também eu, hoje – ao chegar ao ponto de onde parti ha um ano – ao entender que já te entregaras ao choro carpido muito antes de partires para a viagem da qual nunca voltastes, deixo todas as coisas para trás.
       Como me sugeristes, retirei todos os teus sinais visíveis. Existes agora apenas em mim. Enterrei-o com tuas lembranças.
        Volto à vida sem sentimentos, sem tua presença, sem nada. De mãos vazias e olhos limpos – tanto quanto insones – vi o nascer do sol de hoje. Celebrei nossa despedida. Estou mais forte, mais doce, menos crente. Talvez Deus seja mesmo o Deus dos fortes, dos que vivem por si mesmo: sem esperar, sem reclamar, sem querer nada que não seja mais um dia para ser funcionalmente uteis!

quarta-feira, novembro 22, 2017

Destroços

É tarde, mas não consigo conciliar o sono. Levanto-me, tomo um banho morno e preparo um leite com mel. Sento-me no chão e espalho os cacos do que sobrou de mim, à minha volta.
Estou cansada demais. Da vida, de mim mesmo, de todas as pessoas.
A faxina é necessária porque a vida precisa seguir em frente. Procuro ao menos um pequeno pedaço inteiro a partir do qual eu possa começar a reconstruir, mas não há...Tudo foi estilhaçado como um vidro temperado que ruiu ao chocar-se com uma pedra.
Uma grande onda sonora. Um tsunami de silencio e eu me parti inteira. Remendada que já era, colada cuidadosamente pela confiança que depositei em você, nada sobrou.
Arremessada brutalmente sobre os cacos de mim mesma, os estilhaços me romperam por dentro de uma forma horrenda. O sangue jorrou sem parar e a hemorragia me sufocou completamente. Nada sobrou além do sangue, nem mesmo a dor.
O vazio é imenso. Não tem começo e nem fim. Não tem luz, nem cor.  É um vórtice do qual não consigo sair. Já me revoltei, já busquei soluções, já chorei e já orei e já esperei. Agora não faço e não quero mais nada.

Não quero nem você e nem a vida. Não quero ninguém: nem filhos, nem netos, nem amigos ou relacionamentos. Não quero nada. Ou antes, quero: quero dormir um sonho profundo, sem sonhos e sem lembranças. Eterno. Duradouro.
Quero esquecer que a pessoa em quem mais confiei na vida me sacaneou, usou, enganou. Quero esquecer o tamanho do meu engano em acreditar, confiar e honrar alguém que ao fim mostrou que não era nada do que eu pensava...
Não é o fim que dói, é a desilusão com a pessoa, com o caráter, com a conduta.
É pensar que a integridade, a lealdade, a sinceridade tão propalada, o carinho e a consideração tão reafirmados não existiam. Eram só uma hipocrisia como toda e qualquer outra existente.
Nada e ninguém é confiável. Nem mesmo você. Nem mesmo eu porque me enganei com você, sobre você.
Lembro-me do adágio que diz: Para saber se algo vale a pena, pergunte a quem já alcançou. Eu vi todo o tempo quem alcançou o lugar  próximo do qual eu queria chegar, mas vi com os óculos da ilusão do possível diferente.
Olhei com os olhos demasiadamente admirados. Cheios de um respeito e uma consideração que não existiam. Não vi o que estava ali, vi o que quis ver e agora que nada resta, a visão do vácuo é assombrosa.
Vinte e cinco anos destruídos em cinco meses. Onze anos jogados ao lixo. Pisoteados. Moídos em cacos que agora se espalham ao meu redor...
Sorrio enquanto o sangue inunda tudo.
Não, claro que não. Claro que você não pediu que lhe amasse. Claro que não prometeu que duraria para sempre. E nem esperei isso.

Prometeu, sim, respeito, consideração, lealdade e não cumpriu.
Prometeu amizade, consideração. Exigiu e conquistou respeito e ao final mostrou que não os merecia. Foi moleque. Irresponsável, sem a menor consideração comigo.
Descartou-me como se descarta uma roupa usada que já não serve.
Escondeu-se sob a primeira tramóia que apareceu para se afastar jogando em mim uma culpa que sabe que não tenho.
Não tenho mais utilidade. Não sirvo mais. Porque já não precisa do serviço que eu lhe prestava ou porque outra pessoa o presta agora, dispensou-me como se joga um papel de bala já chupada: pela janela, sem olhar para trás. Sem uma palavra, sem uma explicação.
Se eu me quebrei, azar o meu!
Se eu pedi, perguntei, se nos prometemos não fazer isso, se abri mão de tantas coisas, problema meu que acreditei no combinado, que me dediquei, que tentei. Porque considerar? Vamos a próxima conquista. Há novos atos para serem feitos, novas técnicas a serem experimentadas, novos caminhos a desbravar.
E eu?
Você? Quem é você? Apenas um nada inservível jogado...
Sentada entre meus cacos, queria dormir um sono eterno. Sem sonhos e sem fim. Queria esquecer tudo. Todos. Se não tenho importância para ninguém, se o próprio Deus parece ter se esquecido de mim, para quê ainda caminhar entre os homens? 

O sol me incomoda. A chuva. Os sons. Minha mente sobriamente vazia. Meu coração parado, meu corpo inerte. Nada mais existe ou tem sentido. Não quero nada, só queria muito me quebrar por fora como me quebrei por dentro e entre flores olhar para todos, de dentro do sono, e saber porque...



quinta-feira, setembro 28, 2017

Pequena Nuvem

               

Quando cheguei a festa já havia começado..
                As pessoas andavam de um lado para o outro, agitadas, sorridentes. Falavam e cantavam alto. Desconfortável, observei que meu lugar de costume estava ocupado. Fiquei parada sem saber como agir. Para onde ir. Uma multidão se deslocava em minha direção e roguei a Deus que me poupasse dos abraços e sorrisos que eu não dispunha.
                Com os olhos procurei o socorro do seu sorriso, um gesto discreto de mão, um leve aceno a me dizer: entre e sente-se. Esteja em casa. Mas você não me viu. Estava ocupado, distraído, absorto entre seus pares. Feliz, entre sorrisos, nem observou meu desespero. Fiquei ali, parada, clamando por socorro.
                Meu pedido de invisibilidade foi atendido. De toda a multidão apenas três pessoas se aproximaram. Duas senhoras. Uma se chama Ana ; a outra não sei. E o homem alto, largo que tem um abraço acolhedor. Deu-me boas vindas, me abraçou. Em nome do dono da casa, Desejou-me paz. Senti a paz se acomodar em mim. Caminhei tranquila em busca de um lugar que dessa vez foi muito central.
                Sentei-me assustada. Lancei mais um olhar de socorro/reconhecimento. Não obtive qualquer resposta. Invisível, concentrei-me em  desfrutar da festa, ao menos parte dela.
                Durante o desenrolar das apresentações, descobri surpresa que muito embora lhe localize sem necessitar de óculos, já não distingo sua voz, seu timbre, como antes fazia. Por um minuto parei para pensar se as vozes estariam tão maravilhosamente misturadas que não distingui, ou se meus ouvidos já não são capazes de reconhecer por falta de lhe ouvir...
                Meu coração acabrunhado não conseguiu, como de outras vezes, se encher, se expandir, sintonizar-se, alimentar-se daquele bobo orgulho de lhe ver tão belo, tão austero, tão você. Tímido, não se sente mais no direito de lhe admirar. Ferido, exangue, já chorou tanto que está fraco demais para sorrir. Quebrado, pisado, amarrotado, não sabe como bater por você... Ficou ali, parado, olhando e perguntando: Por quê?
                Você passou, sorriu, segurou minha mão. E naquele sorriso eu vi tanto de um você que eu amo que me pendurei nesse gesto pequeno e talvez quase insignificante, como quem se segura na mão de Deus: Não importa se são cinco pães para cinco mil pessoas, importa o agir de Deus, havia dito o Pregador há pouco. Lembrei. Meus olhos cheios de lágrimas apenas sussurraram: eu creio em milagres, eu creio em Ti. Age e faz o Teu milagre em mim. Em nós!
                Por muito tempo aguardei que aparecesse. Queria lhe cumprimentar. Queria lhe dar um abraço. Falar, mesmo sem palavras, de paz, de carinho, de alegria e confraternização. Distante, frio e seco, você me agradeceu a presença e disse: vou embora, ainda não almocei e saiu.
                Atravessei a multidão sem rumo e sem saber se realmente deveria ter ido, deveria ter atendido ao seu convite. Ao volante, minha alma escorrendo pelos meus olhos mal me deixava ver a rua. Estou vazia, apagada, mortificada.
                Pelo telefone, uma resposta curta e cirúrgica, atendeu a uma pergunta longa e bem explicada. Substituiu o que antigamente teria sido: Obrigada. Gostou? Estava bom? Gostei ou não gostei do seu vestido...
                Atônita, não sei o que fazer. Não sei o que está acontecendo. Creio em milagres. Creio no presente de Deus e no fato inconteste que Ele não tira o que dá. Creio no sorriso que vi e que por um momento reviveu minha alma, mas não sei como alcançá-lo.
                Não me sinto mais com forças!
                Recapitulo as histórias contadas: José, Davi, Naamã, Acabe... Antes da pequena nuvem, havia só a noticia de chuva e me pergunto se acaso também naquele tempo houve uma hora em que Eliseu se sentiu assim, como eu, cansado demais para seguir em frente; desorientado demais para saber o que fazer.
                Dobro os joelhos, mas não consigo orar, então, como Davi, apenas choro.
                Sim. Haverá abundante chuva! Sim. Aquele sorriso foi apenas a  pequena nuvem!

A LUZ DO SEU SORRISO

                 Amplio a foto para ver melhor e o quarto se enche de luz!
                O sorriso que preenche o écran é pleno de uma luz quente e acolhedora. Por um momento me sinto aquecida.  
                 Sorrio de volta. Adoro ver esse sorriso!
                Do outro lado, a imagem que sorrir é quase a mesma que me olhou séria, por sobre os óculos, há 25/30 anos atrás. O terno  e a camisa são outros. O rosto talvez esteja um pouco menor, mas é a mesma pessoa, o mesmo sorriso que chegava desejando feliz natal em plena páscoa...
                A realidade me traga implacável. Não vejo seu sorriso há muito tempo, ao menos não o vejo sobre mim há tempo demasiado para começar a sentir frio e fome dele. 
             Meu rosto inundado se crispa numa pergunta para a qual não tenho resposta e nem mesmo você má dá: o que fiz para ser exilada da sua presença, para perder o direito de me aquece ao calor  do seu sorriso? Lembro da ultima vez em que o vi, o sorriso, estava ali, completo, luminoso, quente, aconchegante. Envolveu-me, enlaçou-me, escorreu pela ponta dos seus dedos ternos, fortes, doces, exigentes mas recompensadores..e de repente, do nada, pluft: perdi tudo, como se tivesse sido tragada por um buraco negro de onde não consigo mais sair.
                Sinto falta do seu sorriso. Do seu calor. Do seu abraço. Sinto falta de você que me escorre entre os dedos sem eu saber por que ou como fazer para lhe reter. Tenho medo do frio e da escuridão que sua ausência traz.
                      Não quero lhe perder, mas não sei como lhe recuperar.
                Uma sombra enorme parece cobrir toda lembrança de quem fomos, de tudo que vivenciamos, do quanto nos apoiamos, ajudamos, partilhamos de prazer, sorrisos , canções e lágrimas.
                   Nada é eterno, sem dúvida, mas ... É maior que eu a dor que rompe por dentro e me desfaz em prantos ao ver esse sorriso lindo e pensar que posso tê-lo perdido para sempre: sem uma palavra, sem uma explicação, sem um motivo, sem ter feito nada para merecer isso!
                À mente me vem a lembrança de que também não fiz nada para merecer você em minha vida, mas ganhar é muito mais fácil que perder, por outro lado, sim, fiz: Quis, desejei e sonhei com você cada segundo da minha vida. Respeitei, confiei, admirei e estive discretamente junto tanto quanto você me permitiu. Amei e lutei até minhas forças se esgotarem. Me ajoelhei e clamei por socorro, por  proteção, porque é a única coisa que me resta fazer.
                Sinto falta do seu sorriso, do seu abraço, do seu cheiro, do seu calor. Sinto falta de brincar com seu cabelo macio, de afundar o rosto no seu peito e sentir seu cheiro gostoso entrando em mim. Sinto falta do seu corpo sobre o meu, dos seus braços me alçando como alavanca, dos seus dedos tamborilando minhas costas, numa suave canção de sossego. Sinto falta do seu sorriso curtinho, pendurado entre os olhos, escondido no canto da boca, e sinto falta daquele outro que vi em Dezembro: pleno, radiante, luminoso.
                Nada desaparece assim, num estalar de dedos. Sei que não estou enganada. Sinto que posso recuperar esse sorriso, esse calor, esse abraço que é tão fundamental para mim, mas não sei como. Você pode me dizer? Ensine-me como posso novamente encontrar você!
               


quarta-feira, maio 03, 2017

Das Minhas Inabilidades

A situação foi, como sempre, pitoresca!
Estou no balcão despachando um processo e vem lá de dentro um serventuário sorridente. Passa por mim e interrompe minha prosa de trabalho com um efusivo boa tarde seguido de um largo sorriso. Surpresa, e, como sempre, sem graça, abro um esboço de sorriso e retribuo a saudação.
Certamente meu desconcerto foi evidente. Sempre é!
O serventuário, cujo nome desconheço, para a poucos passos de mim e diz: Você não está lembrada de mim? Estudamos juntos, dois semestres. Começamos a faculdade juntos, turno da tarde, e depois cursamos um semestre no turno da noite, novamente juntos.
Sorrio mais desconcertada ainda! Não tenho a menor lembrança nem dele e nem de todas as demais pessoas que ultimamente, de forma recorrente, me param na rua e dizem me conhecer.
É mais um dos paradoxos da minha vida. Mais uma das contradições porque se não houvessem miríades de contradições não seria eu...
Sorrio e brinco para amenizar o desconcerto de ambos – parece-me que ele tinha certeza de eu o reconhecer: Espero que a lembrança não seja ruim, já que minha memória é horrível e fica pior a cada dia!
Meu interlocutor abre um sorriso iluminado e me responde: Jamais! Se lembrasse de você de forma negativa teria passado reto. Coisas ruins devem ser ignoradas! O elogio atravessado me pega de surpresa.
Ele se vai. Volto aos assuntos de trabalho que findos me deixam livre para pensar nesse e em outros inusitados encontros que à miúde tem acontecido.
Ao que parece passei minha vida sendo mais ou menos marcante, de alguma forma, para as pessoas que me circundavam, embora elas não tenham marcado presença em mim. Porque, me pergunto, se eu era tão interessante ao ponto de vinte anos depois lembrarem-se de mim, não me chamaram para um lanche, para uma conversa, um café? Porque não trocamos telefones, não formamos grupos de estudos, nunca me convidaram para nada, nem o mais comezinho evento social da turma? ...
Atravessei minha vida sem me importar com dinheiro, vida social, influencia ou sucesso. Preocupei-me apenas em ser eu, em ser leal aos meus princípios, a cuidar da minha casa, a viver corretamente sem jamais me meter em fofocas e tanto quanto possível não as permitir a meu respeito.
Transcorrido bem mais que 50% dessa estrada observo que de alguma forma impactei muitas pessoas menos a única que me interessava impactar.
Minha inabilidade social é gritante. Não tenho muitos amigos e não sinto falta de tê-los. Os poucos que tenho, cuido-os. São preciosos e leais. Respeitam minha forma reservada e minha necessidade de espaço e silencio, mas reconhecem quando preciso de colo e chegam.
Os parceiros foram acidentes, exceto um e exatamente esse nunca consegui alcançar.
Um fruto doce de sabor encantado, mas com uma casca  impenetrável. Nunca consegui arrancar-lhe uma única lasca. Bebi do que gotejou, do que sobrou,  debalde todo e qualquer esforço que tenha feito, nunca consegui sequer arranhar, que dizer marcar sua casca protetora...
Contraditoriamente foi o único que sempre me interessou marcar. Despretensiosa que sou, não sonhei com marcas grandes. Sem trombetas ou cavalos brancos. Queria apenas ter sido como uma cerveja gelada no final de uma tarde quente, com amigos reunidos em volta da mesa. Como um jogo do seu time predileto, como uma prática desportiva da qual muda-se a modalidade conforme o corpo pede, mas nunca se abandona.
Não queria muito, só queria ter me tornado algo mais. Uma referência, um sorriso, um habito querido, um desejo permanente, mas a minha inabilidade social é tão grave que nunca consegui conquistar – nem mesmo convivendo amiúde – a única pessoa que realmente me interessou!

Palmas pra mim! Eu poderia ganhar na loto dos mais inábeis, se ela existisse, mas aí, é claro, só para contrariar, haveria alguém ainda mais inábil que eu e, certamente, eu perderia novamente.

Paralelos



 Saio da Justiça Federal em direção a Sobradinho.
Na rua, uma tarde majestosa e fresca me espera. O sol emite uma luz dourada que se insere pela folhagem das arvores pouco densas do cerrado e pousa como um beijo sobre o gramado verde. Tudo parece um grande sorriso de Deus!
Do Torto vislumbro o engarrafamento que vou enfrentar. Estende-se, visivelmente, até o Taquari. Lembro de suas palavras: Estrada de Sobradinho só até 16:30...
Quantas vezes e em quantos diferentes horários já passamos por essa estrada ao longo dos anos que nos acompanharam? Muitas e muitas e durante muito tempo associei esse recorte topográfico a momentos de muita alegria e felicidade. Era-me quase impossível passar por aqui sem sorrir, sem lembrar daquele caminho entrelaçado de arvores de onde se avista Brasília como se as arvores se abraçassem para formar um túnel.

Já tem muito tempo que não fazemos esse percurso juntos e hoje não mais o associo a alegria prazerosa das pessoas felizes, mas às nostálgicas lembranças dos antigos quando lembram tempos que se foram. De repente me sinto muito velha!
Tudo que tenho nas mãos são lembranças! Dizem que isso é a velhice: Quando os sonhos se substituem gradativamente pelas lembranças e tendemos a nos refugiar no passado porque nada mais se vê à frente... Será?
Tenho sorrir. O engarrafamento é longo e terei bastante tempo para lembranças, mas também será necessária muita atenção. Chorar não convém. Embaça os olhos, diminui os reflexos, deixa o rosto inchado e estou em horário de trabalho...E afinal, se não for capaz de sorrir ao lembrar o que passou, para que serviu ter sido feliz? Não escutei de você mesmo que tudo na vida tem começo, meio e fim? Sorrio e penso: Mas não era esse o fim que eu queria...
                  Como todos os planos que fiz na minha vida, também isso não saiu da forma como almejei. Queria assim, uma tarde dourada, uma noite fresca, uma lua linda e um mar batendo na areia da praia. Tenho a noite escura, sem estrelas, no deserto do saara...
Enquanto manejo as pistas procurando os espaços que os motoristas menos hábeis deixam vagos, penso em como toda a minha vida foi assim: Sempre procurando espaços, sem nunca conseguir encontrar um que me coubesse, acolhesse, acomodasse.
Enfim, quando já havia, exatamente como acontece agora, na altura da policia rodoviária, me acomodado a um pequeno e chato espaço na fila, abriu-se uma vaga enorme, com vista para o nascente e renasci!
Lá estava eu bem crente que seguiria minha viagem assim, até o fim. Respirei feliz e agradeci ao destino – chamemos assim para numa respeitosa metáfora – por um lugar tão privilegiado. E lá pelo meio da estrada um caminhão me fechou e jogou para o acostamento. Nem consegui ver a placa ou entender o que aconteceu, mas, certamente a vaga era muito boa para ser minha! Também agora uma caminhonete enorme pressiona meu pequeno Pálio a sair da frente e lá vou eu, deixando novamente o lugar para outro!
Que amarga que é a ressaca do doce!
Atravessado o Colorado, a estrada flui livre. Aqui em cima, há um céu bonito e pesado de nuvens espessas. Será chuva ou frio? Não sei, mas penso em frio. Não me parecem as fofas nuvens cheias d’água. Novamente volto meu pensamento para a sua lembrança – agora você é quase apenas uma recordação, como se tivesse vivido há muito tempo – gostaria tanto que estivéssemos vendo toda essa beleza juntos! Talvez soubesse me falar algo sobre as nuvens e possivelmente teria um ou outro nome feio para elas. Existem tantos talvez, tantas coisas que gostaria de ter feito com você e todas elas ficaram no mundo das ideias, embora tivesse sido bem simples realiza-las!
Entro em Sobradinho e vou olhando o sol que se derrama sobre o gramado. Há um laivo rosa avermelhado no céu: fará frio a noite!
Quando eu voltar  estará tudo escuro. É a vida que se repete no cotidiano. 

sexta-feira, abril 21, 2017

CACOS




Estou aqui e não sei o que faço.
                A minha frente, jazem cacos.
Cacos brilhantes, cortantes, eloquentes...Contam intermináveis estórias de sonhos partidos, desfeitos. São espelhos que mostram faces desfiguradas, rostos enxagues, almas ensangues. Estão bordados por noites insones e desfiguradas.


Devo joga-los no lixo antes que me firam mais, mas não tenho coragem. Conheço cada uma das estórias bordadas ali e seu silencioso lamento me cala a alma. 
O que faço com estes cacos? Haveria cola capaz de os unir novamente?

Cantam um lamento no meio da noite. Falam de invernos e queimadas. Primaveras e 
renascimentos. Morte e ressurreição. Um deles sobe, eleva-se no meio da sala e pergunta: Mulher de pouca fé, não haveria no Cordeiro força para reunir-nos?
Silencio. No ar o eco da pergunta me pede uma resposta. Calo ainda mais profundamente. Afundo-me em mim mesma sem saber o que dizer. Creio que sim, entendo que não!
E me desfaço, também eu, em outros tantos cacos!
               

segunda-feira, janeiro 09, 2017

Imensas Saudades

  Quantos anos faz que vc viajou?

                     
Surpreendo-me ao ver que apenas oito dias separam meus olhos dos seus.
Para mim, passaram-se séculos desde que lhe vi, abracei, beijei...
Seu cheiro - minha melhor canção de ninar, meu melhor cobertor na falta do seu corpo quente e protetor - já se esvaiu dos lençóis, desapareceu da minha pele, ficou apenas na lembrança que aumenta as saudades: um pouco mais a cada dia.
Tento pensar ao contrário, contar os dias do fim para o começo: não dá certo!
25 dias, sendo muito otimista, pesam muito mais que oito...
Pondero todas as variáveis para amenizar o peso do silencio.
Lembro de ter lido uma vez algo do tipo "sou dessas pessoas que precisam ficar sem para sentir falta..."  Mas eu sou do tipo que ficar sem deixa sem prumo, talvez porque o sem tenha sido sempre a minha tônica ou talvez porque não tenha como ficar sem vc: sua lembrança permeia todas as coisas - desde as mais simples como comer ou tomar banho, até as mais complexas como trabalhar !
O calor está abrasador, o céu está lindo, a tarde escorre preguiçosa, vou tomar um sorvete,um banho, uma cerveja... Tem um arco-iris cortando o céu, o massacre de Manaus, estive na casa da minha cunhada. Todas essas coisas ficam tão sem sentido se não posso dividir com você! Morre tudo aqui dentro, soterrado pelo mais absoluto silencio.
Enquanto ajunto letras, minha mente vaga a procura de noticias: como vc está? o que está fazendo agora? e meu sincero desejo é rasgar o véu do tempo-espaço e por algum  mágica janela espiar você!
Não queria espiar vigiar, não! Não sou desse tipo, não são esses os pensamentos que me povoam...Queria espiar porque lhe ver alimenta minha alma, mesmo que de longe, insufla-me o conforto que a qualquer momento você pode chegar.
Odeio separações. 9,8 KM já são o suficiente. 2.000 km é demais e tem o peso de uma distancia infinita...
Quero um abraço, um beijo e um sorriso.
Quero ficar quieta, aconchegada, apenas sentindo seus pés deslizando sobre os meus.
Quero o conforto do seu peito, seu rosto sereno, seu sorriso curtinho, no canto dos olhos, mas também quero ver aquele outro sorriso, largo, deslumbrante, e aquele rosto de menino arteiro...Pão de queijo, café e vinho. Suco de uva.
Sabe o que quero mesmo?
Quero vc aki, juntinho de mim, mesmo que seja em silencio pintando um aviãozinho, desenhando uma moto, cortando um retalho de vidro.
Quero ficar parada, sentada na soleira, só lhe olhando. Longamente, como olhamos o mar, com o  olhar admirado de quem vê estrelas...
 Minha estrela, sinto sua falta!

"seus olhos, meu clarão, me guiam na escuridão. Meu riso é tão feliz contigo, (...) você é assim, um sonho pra mim, quero lhe encher de beijos..."




quarta-feira, dezembro 21, 2016

Melhor que bolo de chocolate

É sempre indescritível a sensação que seu cheiro causa em mim. Nunca sei o que é mais forte, o q mais me move, se sentir seu cheiro, ouvir sua voz ou ver você. A junção desses sentidos opera uma revolução em mim. É como se um tsunami me varresse por dentro, tirando tudo do lugar, de uma só vez.
Interessantíssimo, todavia, é observar como todas as coisas jogadas para o alto ficam firmes ao simples toque do seu braço, seja num abraço forte me prendendo pela cintura no meio da sala, seja pelo toque de carinhosa firmeza que me vira sobre a cama. Suas mãos, seus braços, seu corpo inteiro, como um poderoso maciço tem o dom de transmitir uma segurança que coloca tudo em ordem, em fila...e me abro num sorriso bobo, interno, de criança olhando arco-íris.
Não foi diferente hoje, e foi pq não esperava você. Sem aviso prévio, sua chegada me puxou da cama, ainda tonta, nesses primeiros dias de férias. Abri a porta e não acreditei nos meus olhos. Completamente desalinhada, sem banho tomado, sem perfume e cheirando a café, me senti tão desarmada quanto Hadassah quando se apresentou a Xerxes, rei da Persia.
Sorri, porque sorrir é tudo que se pode fazer nessas horas e também porque se não temos nenhum ornamento, o sorriso pode ser o maior e o melhor deles. Sorri com a alma e meu sorriso transmitiu toda a desconcertante felicidade de lhe ver aqui, na minha porta.
Vc entrou e como de sempre, enquanto eu fechava a porta – um dia eu fecho e não abro mais, mas deixo vc aqui, trancado comigo, rs – colocou seus acessórios sobre a bancada do móvel. O que vc já não fazia há muito tempo foi me pegar pela cintura ali mesmo, em pé e no meio do cômodo. Sem olhar as janelas , sem perguntar se havia alguém em casa, simplesmente tomou posse do que era seu e me beijou profunda, gostosa e provocantemente.
Lembro de forma vaga de suas mãos pelas minhas costas numa insinuante exploração que desceu e brincou com a aba não muito extensa do meu short matinal.
Adivinhei o trajeto que elas fariam e de alguma forma, como no meio de um sonho, senti elas penetrarem o tecido afastando-o delicadamente. Houve o murmúrio de uma palavra dentro da minha boca. Deduzi que era “nova”. Entendi por meios transversos que talvez se referisse a calcinha que pretensiosa tentava resguardar algo! Como se fosse possível ou desejável conter suas mãos!
Não me lembro de detalhes – não sei como chegamos no quarto – mas me recordo, a seguir, de sentir sua boca me percorrendo inteira, me sugando como se eu fosse uma fruta madura e saborosa, que merece ser lambida e chupada antes de ser comida, aos pedaços, como fome degustativa.
Relembrar as sensações que o contato da sua língua na minha pele provoca é quase um martírio. Deixa-me a vontade acesa e o querer repetir isso como num loop infinito. Será que há um bug na minha cabeça? Risos
E suas mãos sucederam sua boca e vi no seu rosto aquele seu sorriso lindo de criança travessa. Ah, sim! Tenho certeza de que você estava se divertindo com tudo aquilo e me diverti mais ainda. Foi bem aí que ouvi aquela voz maravilhosa e seu comando encantado – me surpreendo como um comando pode ser carinhoso e sensual, mas continuar sendo um comando! –: ‘Isso, assim, goza pra mim...” Tudo que lembro é que no momento seguinte você era todo meu dentro de mim e eu podia ver seu rosto tão perto que o segurei entre as mãos! Por alguns segundos você era só meu, tão meu no seu prazer quanto eu sou sua todo o tempo e essa diferença latente entre os gêneros faz com que seja tudo assim gostoso e colorido e o corpo que arriou sobre o meu estava divertidamente saciado e emanava um cheiro suave de acolhimento e carinho. Respirei fundo, sentindo seu cheiro gostoso, mas gostoso que bolo de chocolate quando está assando. E... acordei!


quarta-feira, agosto 10, 2016

Humano Amor de Deus



Existe na tradição popular um adágio que diz que Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos. Não é uma passagem bíblica, embora muitos acreditem que seja, e a origem desse adágio tem variadas lendas.


Eu, pessoalmente, acredito que possa, inconsciente, proceder -  talvez até tenha sido um comentário feito por algum pregador, em algum lugar -  em Êxodo 4:10-12. Não importa a origem do adágio, o fato é que assim acontece.

            Sempre que ouço a música Humano amor de Deus me lembro de você porque ela fala exatamente como, a partir de um amor humano, no sentido mais humano possível, Deus pode falar com alguém, porque por seu intermédio Ele falou e agiu em minha vida com uma força e uma potência que jamais me será possível esquecer.

Tens o dom de ver estradas
Onde eu vejo o fim
Me convences quando falas:
Não é bem assim!
Se me esqueço, me recordas
Se não sei, me ensinas.
E se perco a direção
Vens me encontrar
            Nessa primeira estrofe, o poeta/compositor fala de alguém perdido que tem uma mão que o guia, que o encontra, que o conduz. Alguém que acalma seu coração, mostra outras saídas e tem o poder de ser escutado, amorosamente obedecido pelo dom do convencimento.

            Não foi sempre assim entre nós? Você não me corrige, não me mostra a direção correta – muitas vezes até de uma forma bastante dura – não me traz de volta aos trilhos sempre que descarrilho?
E sempre é sempre mesmo, desde que nos conhecemos, há muitos anos...
O compositor segue dizendo:

Tens o dom de ouvir segredos
Mesmo se me calo
E se falo me escutas
Queres compreender
            Tenho absoluta certeza de que não sou a única pessoa que acha que você tem o dom de ouvir segredos!
            E aí é engraçado constatar que essa cara dura, fechada, esse vozeirão de trovão, possa ao mesmo tempo despertar toda essa confiança e acolhimento, essa certeza de que se você falar será compreendido, aceito e orientado.
“Não me interessa o que a senhora faz da porta desta sala para fora. É sua vida privada. Da porta da sala para dentro não tenho nenhuma restrição à sua conduta. Não tem que ir embora, não se quiser ficar! ”
            Não posso jurar que as palavras foram exatamente essas, que estão reproduzidas ipsis litteris, mas certamente estão no contexto exato, pois é assim que ressoam nos ecos da memória de um tempo tão sofrido quanto solitário.
            Desse tempo guardo um folhetinho sobre confiar no amor de Deus. Era um primeiro sinal de que Ele se utilizava de você, uma linguagem que eu poderia entender, para falar comigo.
            E os anos se passaram, e a vida tomou seus rumos. E nos perdemos de vista e passamos por tantas coisas, cada um de nós, necessárias, todas elas, para sermos quem somos hoje, e então, num certo dia:
Se pela força da distância
Tu te ausentas
Pelo poder que há na saudade
Voltarás!
            E entre milhões de endereços de e-mails, eu achei o seu e tomei coragem, e me atrevi a lhe escrever. Precisava dizer o que não tinha como ser dito, mas queria de alguma forma estar perto, abraçar você, como você me abraçou um dia. E eu que nem sou de ter essas coragens e atrevimentos todos, eu que sempre me senti muito tímida na sua presença, muito criança, muito pequena – sem nem saber se você ainda sabia quem eu era – me atrevi a bater na porta da sua tela e dizer: oi, pode contar comigo!
           
E mais uma vez, a vida e seus mistérios, você veio ao meu encontro, em meu socorro, quando deveria ser eu a lhe acalentar:
Quando a solidão doeu em mim
Quando o meu passado não passou por mim
Quando eu não soube compreender a vida
Tu vieste compreender por mim
            Nem sei quantas vezes ao longo desses anos eu olhei para você, para sua vida, para me entender melhor. E quantas vezes você mesmo me mostrou quem eu sou ou porque tenho essa ou aquela reação.
            No meio daquele redemoinho em que eu estava, perdida na mata escura de um passado/presente mal resolvido, você me resgatou, me limpou, curou e restaurou: Quando eu não soube compreender a vida, tu vieste compreender por mim!
Quando os meus olhos não podiam ver
Tua mão segura me ajudou a andar
Quando eu não tinha mais amor no peito
Teu amor me ajudou a amar
            Caminhei e caminho segura sobre seus passos porque sempre que a neblina se espalha – desde aquele dia, já distante no tempo, até hoje – seus olhos são faróis potentes que me mostram o caminho e entre seus braços, que possuem o melhor e mais seguro abraço, encontro a paz perfeita dos grandes e protetores portos.
            Você encheu minha vida de luz, abriu as janelas para entrar o sol, me devolveu as letras, a cor, o sonho e com esses a vontade de experimentar viver.
            “Teu amor me ajudou a amar”. Muita pessoa tem medo desse verbo (amar) porque fazem uma projeção romântica dele, sem entender que o amor tem formas diferentes de se manifestar, mas certamente não tira o fôlego ou causa insônia.  O amor só é amor de verdade se lhe constrói, se lhe faz melhor, se lhe dá alegria, liberdade e segurança. E essas palavras – alegria, liberdade, segurança – aprendi com você, então, foi, sim, o seu amor que me ensinou a amar!
Quando os meus sonhos vi desmoronar
Me trouxeste outros pra recomeçar
Quando me esqueci que era alguém na vida
Teu amor veio me relembrar
            E você foi catando os cacos da mulher que eu poderia ter sido e que estavam submersos nos escombros da minha existência atribulada.
            Montando esse imenso quebra-cabeça, com uma paciência monástica, fez de mim alguém muito melhor do que eu já fui um dia. Pintou-me com cores vibrantes, poliu minhas estruturas, colou as rachaduras sem deixar vestígios e finalmente insuflou em mim vida e novos sonhos, anseios, desejos. Me deu asas para voar e hoje, cada vez que olho nos seus olhos, que vejo o seu sorriso, me lembro:
Que Deus me ama
Que não estou só
Que Deus cuida de mim
Quando fala pela tua voz
E me diz: coragem!

            E quando me vejo dentro dos seus olhos, quando suas mãos deslizam pelas minhas costas, ritmando uma canção que a minha pele conhece de cor ou numa carícia sensual reconhecendo a mulher que dorme ali, eu me recordo:

Que Deus me ama
Que não estou só
Que Deus cuida de mim
Quando fala pela tua voz
E me diz: coragem!





·        * Humano amor de Deus é uma canção do Pe. Fábio de Melo. 


quarta-feira, agosto 03, 2016

Desejos

                       Cheguei cansada e com frio.
            O dia foi pesado, difícil, embora muitas pessoas achem que o trabalho intelectual não cansa. Ainda bem que você me entende: trabalhou por toda uma vida com a mente, sabe que cansa.
            Desfaço-me das roupas que, ao menos hoje, estavam confortáveis. Tiro os sapatos, reduzo minha indumentária a uma camiseta quentinha e velha. Subo na cama e me meto entre os cobertores macios.
            Quero descansar um pouco, relaxar vendo um seriado, antes de providenciar o  jantar.
            Coloco minhas pernas sobre as suas e fecho os olhos. Longe, a voz do jornalista me dá uma vaga sensação de realidade. Suas mãos magicas deslizam pelas minhas pernas num carinho silencioso.
            Nada melhor depois de tantas escadas, sobes e desces, intermináveis horas de balcão, que uma massagem nas pernas, nos pés...
            Fico pensando nas suas mãos. Observando sem olhar cada movimento, cada mudança de pressão. São belas mãos. São fortes, são precisas, são extremamente ternas, deliciosamente sexys.... Acho que esbocei um sorriso: - o que foi?
            A voz que quebra o silêncio de uma forma compassada e serena, faz vibrar toda a minha natureza de mulher. Apenas sorrio e aceno com a cabeça em uma negativa.
            É tão bom chegar do trabalho e lhe encontrar aqui. Saber que voltei não para o nada, mas para você, para o seu aconchego, para o seu cuidado, para os seus braços acolhedores, mesmo que as vezes eles estejam silenciosamente fechados! Todos temos dias ruins...
            Gostaria de ter estado ao seu lado nos dias em que era você a chegar cansado, mas um bom vinho, como um bom sommelier, tem seu tempo de cura  e nessa época talvez eu não estivesse pronta para entender e degustar toda a complexa beleza da sua companhia.
            Suas mãos se movimentam num ir e vir e já não estão nas minhas pernas. Sobem delicadamente pelas minhas coxas, interna e externamente, vão se alternando. Imagino seu sorriso maroto, sua forma de me descansar.
            _ Mãe, desligo a tv?
               Mãaaae...
            Pulo na cama sem entender o que está acontecendo.
            Olho para os lados e não lhe vejo. Na porta do quarto, meu filho parado sorri da minha expressão assustada.
            - Apago a tv? Vc está dormindo...
            - Não, não...Estou vendo o seriado!
            - Hum, sei...
            Estranhamente seu cheiro está no ar, nos lençóis, e na minha pele ainda sinto o seu toque, a pressão deliciosa das suas mãos...