Sábado, Agosto 06, 2011

Rendição


Criei barreiras para me proteger de você, construí muros, barragens, levantei cercas imaginárias, proteções intelectuais, me convenci de sua partida enquanto seu cheiro era tatuado em minha pele.

Contei a mim mesma, inúmeras vezes, como seria sua partida e a mim mesma respondi que não sofreria porque tudo era sazonal, passageiro...

Deixei claro, em longos e coerentes discursos internos, que você não era mais que um acidente eventual de percurso, enxuguei a possibilidade de qualquer lágrima, vesti-me da couraça indiferente e parti segura ao encontro dos seus braços

Você cresceu dentro de mim. Suas águas se avolumaram, fizeram pressão contra as paredes criadas, arrebentaram a barragem, inundaram meu ser e, de repente, tudo que eu tinha para me mostrar o caminho era a sua imagem gravada em minha retina.

Quase afogada, submersa nos meus próprios sentimentos, seu braço me vestiu no abraço salva-vidas que manteve minha cabeça à tona. Respiro e o ar está impregnado do seu cheiro. Encho os pulmões quase colados, a vida retorna lentamente. Abro os olhos e vejo você.

Seu sorriso menino, tão homem, é  sol que esquenta e acalenta e só saber-lhe é suficiente para dilatar-me em vida.

Abraço seu tronco perfeito e me aninho na curva do seu braço. O abraço que me veste, conta as vértebras distraído, tem a perfeita sincronia de estar em casa, no ninho.

Meu sorriso suave, escondido no manto do seu peito, reconhece a ineficácia de minhas proteções... Você faz parte de mim!


Quarta-feira, Julho 20, 2011

Sensações...Suas...



Nunca me canso de olhar você! A agilidade do seu caminhar leve, a juventude elegante dos seus modos me encanta tanto quanto a beleza sóbria do seu corpo, a magnetude da sua personalidade, o imã que existe em seu olhar, o encanto escondido na sonoridade da sua voz.
Não sei como lhe desejo mais: se quando longe e minha imaginação vagueia a sua procura, fantasia sobre o que está fazendo, como está vestido, em que se ocupa ou se quando, à minha vista, posso ficar estasiada nessa contemplação infinita.

Mergulho no seu olhar em busca de mim mesma. Estou lá no fundo, criança brincando de arco-íris. Afundo minha cabeça em seu peito e seu cheiro me resgata, me tonteia, seguro em seus cabelos para me manter à tona dos meus próprios desejos.

Insanos desejos de tê-lo meu por mais uma hora, por um dia, uma semana, só mais uma noite, uma vida inteira...

E a fugacidade do momento o perpetua como o sabor de um chocolate que comemos sabendo ser, talvez, o último da caixa. Espalha-se pela língua, toma conta do corpo, impregna na alma e faz de você um pedaço perene de mim.

Um dia terá que partir – e tantas vezes já ensaiou esse movimento – um dia terei que deixar-lo ir. Não sei pensar esse momento, não imagino como vou me sentir. Não quero, não estou preparada para vê-lo ir.


Acordo sobressaltada, você não está aqui. Alcanço o telefone que pisca, não vamos nos ver, me viro, tento dormir, não consigo, quero seu abraço, seu beijo, meu peito arfa, sinto saudades...

Terça-feira, Março 01, 2011

Sensações



                Gosto de ver minhas unhas vermelhas em contraste com tua pele alva, grito de minha alma presa entre os dentes, derramada pelos meus olhos quando retenho teu rosto entre minhas mãos.

                Meus olhos, crianças travessas, enchem-se de brilho – sinto-o no mais profundo de mim – como se o sol nascesse dentro da minh’alma quando te contemplo e tua beleza – mais que um conceito estético, um sentimento – se irradia por inteiro.

                Sou menina deslumbrada, homem diante da imensidão, e me perco na profundidade dos teus olhos que sorriem.

                Os dedos que percorrem minhas costas, num carinho casual, tocam uma melodia escrita nas nuvens, evocam a imagem elegante e imponente que num relance meus olhos captam a qualquer distancia e percebem extasiados o quanto estás além de todo o mais!

                Em ti, nada é casual. Nada é usual. Há sempre uma solenidade, um elegante rigor, mesmo quando se estouram bolhas de sabão ou se cai em êxtase profundo, cansados e completos, meninos levados que somos.

                De olhos fechados, vejo-te parado : mãos na cintura, camisa clara, calça preta e uma beleza que fere os olhos...Um sorriso escondido, talvez por isso mesmo fascinante, que prende o olhar e domina a mente. Como não seguir-te, como não encantar-se contigo?

                Embalada em minhas lembranças, sinto teu cheiro e teu abraço me conforta ao longe. Ouço tua voz a contar-me estórias e histórias, tempos pretéritos e presentes, a compartilhar momentos , eventos, paisagens da tua vida que tanto me encanta visitar.

                Contando as contas de contar lembranças, meu peito se enche de orgulho pelo tempo que temos compartilhado, por tantos momentos, pela ternura que muitas vezes surpreendo no teu olhar e se dilata na esperança, sempre temerosa,  de prolongar esse tempo por um espaço incomensurável.

                Teremos mais tempo, teremos mais calma, e, como a fruta que amadurece lentamente, vamos em sincronia, nos encaixando, nos buscando, partindo  cada dia mais juntos nessa aventura que é o pulo no infinito das sensações.

Quinta-feira, Fevereiro 10, 2011

Por dentro das memórias

Sentada na varanda da memória assisto sua partida.

As belas pernas – que o short preto sempre realça – como colunas jônicas de estrutura perfeita, a envergadura de águia, a tração suave de braços cujo abraço paralisam o tempo, mantendo afastados o mundo e seus turbilhões...

A rosa venezuelana , boca macia de corola vermelha, parte em busca de outras abelhas que lhe sugem o néctar, casou-se de mim, do meu volteio incerto e tantas vezes turbulento.

Custou-me crer, e em registros sobrepostos, vi os olhos que sorriam, as curvas que se encaixavam perfeitas num vai-e-vem fantasticamente sincronizado, um balé sem prévio ensaio, mas sempre eivado de absoluto sucesso.

Atônita, vejo dar a volta, e seguir em frente, a mesma pessoa que me impediu, um dia, de ir. ouço, ainda, os ecos de sua voz me pedindo que voltasse, que ficasse. Recordo o abraço apertado, o pedido quase suplicado e me sinto meio enganada. Abandonada, seria o mais correto.

Numa análise rápida, alguns diriam perfunctória, mas não gosto dessa palavra – palavras tem cheiro e cor e esta fede a pus, parece podre – faltou-lhe sentimento, investimento pessoal, alicerce para o relacionamento.

Alguns dizem que os homens são caçadores, adoram abater a caça; outros que são gourmet, interessam-lhes a boa comida e por fim alguns afirmam que os homens são guerreiros, estimula-os o perigo, a adrenalina da guerra, os despojos da vitória.

Talvez caçador, talvez gourmet, guerreiro não creio que se aplique as memórias que trago aqui, pois para ser guerreiro faz-se necessário amar a guerra, o perigo, a disputa, ter em si o destemor cauteloso dos generais, ter no sangue a paixão quase ágape pela causa em questão ...

Ao invés, os pés distanciam-se assustados como o cervo na floresta que ouve o estalido do galho e já se imagina presa do bisão, então corre e vence distâncias quando muitas vezes nada mais foi que o eco longínquo de um pintassilgo!

Contemplo mais uma vez minhas lembranças: parte de novo, novamente. Por quanto tempo? Para sempre? Não sei se voltarás, não sei se voltarei... Tudo que sei é que não era esperado e sinto-me extenuada, como se por dentro, tudo vazio, não existisse nada além do silêncio profundo e das palavras sábias de meu velho pai!

Domingo, Janeiro 30, 2011

Insensatez

É a insensatez que nos permite enxergar além do obvio, a maioria das pessoas não enxerga porque se orgulha de ser sensato, viver conforme as regras.

Acordei lembrando de um texto do grande e querido Ruben Alves – amor platônico, é claro, intelectual, mas profundamente enraizado em mim desde que meu professor de filosofia , nos antigos anos de faculdade, nos passou seu livro o Amor que acende a lua – chamado a Mariposa e a estrela.

No conto em referencia, a jovem Mariposa se apaixona por uma estrela e contrariando todos os conselhos de sua mãe, toda a tradição de sua família, tenta alcançar a estrela para demonstrar o seu amor. Voa cada dia um pouco mais alto na tentativa insensata de alcançar os céus.

As críticas são apenas um estímulo a mais, embora esmaguem seu ânimo e seu coração sensível. Resolve sair de casa para perseguir seu sonho com mais tranqüilidade. Muito tempo depois volta e descobre que toda a sua família já morreu em decorrência das queimaduras de lâmpadas causadas pelos amores tradicionais, normais, pacificados como sendo o certo. Apercebe-se então que sua busca a tornou melhor, mesmo não tendo alcançado a estrela.
Conheceu montanhas e vales, viu o amanhecer e o anoitecer, contemplou o mar e os céus de uma forma que mariposa alguma jamais o fez.

Viveu muitos anos a mais que seus familiares e teve a irrepreensível certeza de que, em geral, “os amores difíceis e impossíveis trazem muito mais alegrias e benefícios que aqueles amores fáceis e que estão ao alcance de nossas mãos.”
É assim que me sinto, como a Mariposa voando em direção a estrela impossível de alcançar, mas aprendendo a cada dia um pouco mais, vislumbrando paisagens que dentro do senso comum jamais conseguiria ver. Aprimorando-me como pessoa, como ser humano, como mulher e mãe, como filha, companheira.

Tentar alcançar minha estrela – que posso, no máximo, tocar com a ponta dos dedos por momentos fugazes – tem me valido um enorme aprendizado. É como seu eu fosse a pedra bruta da qual Michelangelo tirou a Pietá, David, Moisés...

Por seus olhos tenho compreendido mais quem sou e o que sou, meu entorno familiar, meu corpo, minhas emoções e nem adianta alguém vir me dizer que é insensatez : enquanto for possível, vou voar na órbita insensata de alcançar minha estrela.

Que me ofusque a luz do seu olhar, que me sufoque a força do seu abraço, que me perca na saudade da distancia, no cansaço do vôo, mas que haja a órbita a me guiar para que possa dizer como o poeta: Eu gosto da falta quando falta mais juízo em nós / E de telefone, se do outro lado é a sua voz / Adoro a pressa quando sinto / Sua pressa em vir me amar / Venero a saudade quando ela está pra terminar / Baby com você chegando já...

O mundo, Deus, está com aqueles que têm coragem para sonhar e perseguir seus sonhos!

Sexta-feira, Novembro 19, 2010

Simplesmente eu





            No turbilhão de todas as palavras que não tinham como ser ditas, no maremoto de tantos sentimentos, aquele abraço era a gota de orvalho que desce suave sobre as folhas das árvores após um tórrido dia de verão.

            Era o frescor da brisa suave, aquela que vem do mar no final da tarde, remexendo com suavidade os fios curtos dos cabelos tingidos com a esperança ilusória de retardar a vida em seu ritmo próprio.

            O aconchego reverberou nas palavras doces, no tom suave, quase paternal: “Não tem do que pedir desculpas, moça!...” O som projetou, na retina, a imagem refletida no espelho e as lágrimas acudiram rápidas, embora reticentes.

            Sentiu-se envolvida ainda mais fortemente. Naquele instante nada lhe conseguiria atingir, não ali, naquela fortaleza inexpugnável e por alguns instantes sentir-se acolhida, entendida, amada, protegida, era muito mais que tudo.

            Não era necessário usar máscaras, ser forte, incorruptível, sempre certa, absolutamente impecável. Ali, naquele pequeno espaço, podia correr descalça, tomar sorvete e deixar escorrer pelo canto da boca, chorar de medo, gargalhar de prazer, sentar-se de pernas para cima, em cima da mesa, debaixo da cama. Plantar bananeiras, sentir preguiça, ser criança, mulher ou anciã... Podia ser simplesmente o que era e isso era muito para alguém que sempre teve que ser um personagem, um super-herói, uma ficção.

            Um sorriso aflorou no coração e sua alma entoou um cântico de gratidão: Nunca recebera um presente mais valioso na vida que esta oportunidade de ser simplesmente o que era!

Quinta-feira, Setembro 02, 2010

Encontro Casual

Encontraram-se, esbarraram-se pelas calçadas da vida, assim como não quer nada, sem razão ou causa.
Um terno azul e uma camisa branca. Um vestido preto, longo, de pequenas flores coloridas, uma blusa amarela. Esbarraram-se e desse encontro surgiu o desejo, a esperança. Brotou de um olhar, de um pensar involuntário, de um perfume no ar, a remota e intangível esperança de ser feliz.
Esperança de SER. O que seria ser para alguém que nunca foi? Deram-se os braços, aos abraços tatearam a descoberta sem saber ao certo, sem luz do sol, sem espaços abertos, mas com o toque decerto do cetim... Perfume de jasmim e lavanda ao sol da manhã, jardins de bergamotas e tantas corredeiras, trepadeiras, rosas mil.
O tempo passou por eles sem serem notados, sem jamais estarem rotos ou amarrotados, brincando no jardim do Pai eram filhos felizes em seu encontro inusitado.
Na Constancia desse brincar eterno nasceram a esperança e o desejo, quase gêmeos, e como Esaú e Jacó, o desejo veio segurando o pé da esperança que mansa cedeu seu lugar e força. O desejo alimentou-se de cada dia, de cada olhar e hora. Cresceu e floresceu forte e vital quase matou a esperança que aos trancos e barrancos insistiu em crescer.
Magra e mirrada, apagada como um não existir, não era vista e nem sentida, mas estava ali. Esperança de sempre quando se sabia nunca, esperança de um dia para o jamais, esperança de sempre para o só agora.
Foi quando o vendaval suspendeu o abraço e separou os braços que  a esperança mostrou sua força. Resistiu bravamente enquanto o desejo se consumia. Foi forte e disse resoluta: quem sabe um dia e ainda está lá, calada, esperando enquanto o desejo se desespera, descabela e quer que o tempo seja ontem...
Esperar é tudo que a esperança sabe fazer e esperar é uma forma de amar!

Quarta-feira, Agosto 18, 2010

Eu e o Coelho Branco

O coelho branco passa correndo. Consulta seu relógio de algibeira e repete  compulsivo: estou atrasado, estou atrasado... Perde-se  no final da rua, ao norte, enquanto se ouve o eco de sua voz: estou atrasado, estou atrasado.
                Levanto-me disposta a segui-lo, tal como Alice, sabendo no entanto que o coelho branco é a realidade de todos nós, é a minha realidade, sempre atrasada, chegando sempre depois da hora, quando a festa já terminou, quando não há mais lugares disponíveis a não ser na janela.
                Enxugo as grossas gotas de chuva que insistem em escorrer pelo meu rosto. Chove. É inverno na praça do meio do mundo, não obstante,  do oeste, vem um suave fragor de rosas. Aspiro-o. O bouquet está impregnado em mim, gravado no fundo das minhas pupilas, revejo o jardim onde rosas , bergamotas,   limões e mandarina misturam-se a limas da pérsia e enchem o ar com fragor das manhãs.
                Não posso permanecer ali, parada, na chuva. A vida urge, alguns dizem que ruge.
                Sigo o rastro do coelho branco, ele é a realidade. O jardim é só fantasia, é só o mundo de Alice e a fantasia há muito me foi negada!
                Estou atrasada, estou atrasada, estou  cansada!...

Sexta-feira, Julho 30, 2010

Entre Estações



E seus olhos se encheram da beleza contida na poesia do olhar, na ternura do perfume que atravessava o tempo e batia à porta dos sentidos para dizer olá! Sua pele estendeu-se numa fusão de aromas e texturas e a vida começou a resfolegar num crescente que ao modo de volutas elevava-se ao infinito.
Escorreram pelo azul doce de um céu sonhado perdendo-se no quase nada de uma trilha marcada por riscas de giz e no espaço que se ia abrindo a vida aflorava em plena primavera.
Os campos floriram à meia noite e o inverno se afastou célere para deixar espaço às rosas que apareciam e nos olhos de estrelas viu-se o sol que renascia!

E se as flores resolvessem desabrochar em pleno inverno, como ficaria a primavera?

E o fogo chegou sufocando tudo, destruindo a paisagem que insistia em nascer apesar do inverno, tentando matar a vida, como se vida após surgir pudesse ser sufocada. Na sua fúria, murchou as rosas, fez crescer os espinhos e encrestou a face da terra fazendo sua face corar de águas pingadas. Elevou suas mãos em direção ao firmamento na tentativa inútil de destruir as volutas de prazer que subiam como oferendas de incenso. A terra fechou-se em si mesma e abraçou os brotos de vida para os proteger do calor excessivo, o inverno curvou-se sobre ela refrescando seu coração com ternura, escondendo-se nas dobras da noite distante e o céu sorriu vendo seus filhos brincarem de até mais...

E se a chuva lavasse as cinzas e fizesse os brotos nascerem mais fortes?